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04/10/2022

Análise: uma maioria democrática e uma direita forte e resiliente

A seguir, pesquisadores analisam o resultado do primeiro turno das eleições

Por: João Vitor Santos e Patrícia Fachin | 03 Outubro 2022

O primeiro turno das eleições presidenciais, em que o ex-presidente Lula obteve 48,41% dos votos válidos ante 43,22% do atual presidente, Jair Bolsonaro, revela a "a existência de uma maioria democrática", mas, igualmente, a existência de "uma direita forte e resiliente", disse o sociólogo Benedito Tadeu César. Segundo ele, "as pesquisas acertaram os índices do Lula, que estavam dentro da margem de erro. Mas, potencialmente, se imaginava que haveria um voto maior no Lula por causa de um voto cauteloso que as pessoas não estavam revelando por medo dos atos fascistas da extrema-direita. Mas o que se viu foi o contrário: há um voto envergonhado muito consistente e significativo para o Bolsonaro. Isso não aconteceu somente no plano nacional. No Rio Grande do Sul, Onyx Lorenzoni aparecia em segundo lugar, mas quando a direita se uniu, elegeu Mourão com força. Há uma força de direita muito grande em muitos estados. Há, obviamente, uma força de esquerda, de centro-esquerda ou de insatisfação e recordação dos bons tempos no Nordeste e não só; há a possibilidade de o candidato do PT vencer na Bahia, o que parecia impossível. Então, tem conquistas", afirma.

Na avaliação do economista Róber Iturriet Avila, o resultado do primeiro turno indica que "a extrema-direita está enraizada e muito mais forte do que se supunha. Tem um tamanho que nunca teve na história brasileira, alavancada por empresários, produtores rurais e organizações internacionais". De outro lado, sublinha, "o PT e o Lula conseguiram resistir a esse crescimento e hoje representam o campo democrático no Brasil".

Para o pesquisador Ricardo Evandro Santos Martins, a votação deste domingo sinaliza uma "mudança nos ventos da eleição para Presidência. Tudo parece indicar, em mera projeção ainda, a vitória de Lula sobre Bolsonaro neste segundo turno que ainda vem. Isto significa que a gestão, a governamentalidade, as políticas sobre vidas e mortes, do atual presidente, geraram mesmo grande rejeição".

Segundo o cientista político Giuseppe Cocco, "o voto que outra vez chamaríamos de classe, hoje está compacto na procura de um outro mundo e dividido nas opções eleitorais. O desafio colossal é de revitalizar a democracia no terreno mesmo de uma política dos trabalhadores pobres e dos pobres trabalhadores".

O historiador Valter Pomar destaca que o "resultado do primeiro turno mostrou que a maioria do eleitorado não aprova o 'cavernícola'. E que há mais de 56 milhões de brasileiras e de brasileiros que consideram que a saída para a crise nacional é pela esquerda". De acordo com ele, "há resultados positivos em vários estados, que poderiam ter sido maiores se a linha política predominante no PT tivesse sido outra. O caso do Rio Grande do Sul é exemplar: se não tivessem atrapalhado, o segundo turno seria de esquerda contra direita", afirma.

Para o jurista e ex-reitor da Universidade de Brasília – UnB, José Geraldo de Sousa Júnior, o resultado das eleições aponta para o resgate das esperanças. "Abre enormes possibilidades para, como afirmou o presidente Lula, poucos dias antes da votação, em encontro com economistas, personalidades e empresários, criar um ambiente político para a 'reunião dos divergentes para vencer os antagônicos'".

Entre os fenômenos desta eleição a serem analisados nos próximos dias, o cientista político Rudá Ricci destaca o número de bancadas conquistadas no Congresso pelo PT e o PL. "PT e PL fizeram as maiores bancadas federais. PL fez 99 deputados e PT saltou de 56 para 76. Como se percebe, Bolsonaro transferiu o voto do PSL para o PL. Este é o fenômeno a ser analisado". Ele destaca ainda que a votação expressiva de Bolsonaro e do bolsonarismo se deu no Brasil profundo do Centro-Sul, mas não ocorreu no Nordeste".

A seguir, publicamos a primeira impressão dos entrevistados acerca do resultado das eleições, nas entrevistas abaixo concedidas ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira as entrevistas.

Benedito Tadeu César, graduado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, mestre em Antropologia Social e doutor em Ciências Sociais com ênfase em Estrutura Social Brasileira, ambos pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. É professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Benedito Tadeu César (Foto: Leslie Chaves | IHU)

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

Benedito Tadeu César – As luzes são as seguintes: o crescimento da votação do Lula, comparando com Haddad no primeiro turno da eleição passada, e, no Rio Grande do Sul, o PT se recolocou no jogo político porque a esquerda estava completamente desarticulada no estado. Se ela tivesse ampliado as suas alianças, estaria no segundo turno, com grandes chances de vencer. Faltou essa capacidade de articulação e de superar os ressentimentos antigos. Quando se faz política com hegemonias, de um lado, e ressentimento, de outro, a coisa complica.

Nesta eleição, também se revela, nacionalmente, a existência de uma maioria democrática. Isso é bom e é um alento porque se, compararmos a situação com quatro anos atrás ou de 2013 para cá, com tudo que ocorreu em termos de desconstrução do Estado, e o aparelho do Estado nas mãos do Bolsonaro, distribuindo benesses nas últimas semanas, dá para dizer que [o resultado] foi uma grande conquista. Achar que não foi uma grande conquista porque não se venceu no primeiro turno é ilusão, porque era muito difícil.

IHU – E quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

Benedito Tadeu César – A sombra é que se tem uma direita forte, resiliente. Mesmo com quase 700 mil mortes [da Covid-19], sendo que por volta de 400 mil são responsabilidade do governante, com todo o desmonte da ciência, da tecnologia, da educação no país, a direita está aí. Isso tem muito a ver com o controle da máquina [estatal], mas não só. Se analisarmos, por exemplo, em São Paulo, a vitória do astronauta que destruiu a ciência e tecnologia e foi para o Senado, e a votação do Haddad, nos perguntamos o que aconteceu. É que o voto envergonhado na direita, na extrema-direita e no Bolsonaro, se revelou.

As pesquisas acertaram os índices do Lula, que estavam dentro da margem de erro. Mas, potencialmente, se imaginava que haveria um voto maior no Lula por causa de um voto cauteloso, que as pessoas não estavam revelando por medo dos atos fascistas da extrema-direita. Mas o que se viu foi o contrário: há um voto envergonhado muito consistente e significativo para o Bolsonaro. Isso não aconteceu somente no plano nacional. No Rio Grande do Sul, Onyx Lorenzoni aparecia em segundo lugar, mas quando a direita se uniu, elegeu Mourão com força. Há uma força de direita muito grande em muitos estados. Há, obviamente, uma força de esquerda, de centro-esquerda ou de insatisfação e recordação dos bons tempos no Nordeste e não só; há a possibilidade de o candidato do PT vencer na Bahia, o que parecia impossível. Então, tem conquistas.

As perspectivas são, de um lado, a consolidação de uma extrema-direita que parecia que antigamente era envergonhada e que hoje está aí e se mostra mais resiliente do que se imaginava, mas tem uma perspectiva promissora, alentadora – Benedito Tadeu César

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IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

Benedito Tadeu César – As perspectivas são, de um lado, a consolidação de uma extrema-direita que parecia que antigamente era envergonhada e que hoje está aí e se mostra mais resiliente do que se imaginava, mas tem uma perspectiva promissora, alentadora.

Vamos considerar o segundo turno: toda a literatura diz que é muito difícil um candidato ir para o segundo turno com 10% de diferença não vencer a eleição. Então, é muito difícil que Lula não vença as eleições. Óbvio que os bolsonaristas vão entrar com tudo e é uma nova eleição, mas me parece que Bolsonaro tem pouco espaço para crescimento. É óbvio que ele vai ter apoio do governador eleito em Minas Gerais, mas provavelmente o crescimento [do PT] na Bahia e em outros lugares compense. De fato, há uma polarização estabelecida entre uma direita antidemocrática e o alentador é que as forças democráticas vão ter que se unir, superar divergências e se articular; isso parece que está se esboçando. A Simone Tebet disse que tem lado e vai se definir. O Ciro pode não se definir, mas o PDT vai se definir. Então, vai haver um movimento parecido com as Diretas Já e isso vai ser muito importante porque o Congresso Nacional que foi eleito é arrasador e a situação econômica do país e o quadro político são muito ruim. Se o Lula for eleito, ele vai precisar de um grande arco para poder governar, mas isso é possível e alentador.

***

Róber Iturriet Avila é doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Foi professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística – FEE e diretor sindical do Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do Rio Grande do Sul – Semapi.

Róber Iturriet Avila (Foto: Arquivo IHU)

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

Róber Iturriet Avila – Houve alguma renovação de lideranças nos níveis parlamentares, a bancada negra da Câmara de Vereadores de Porto Alegre teve um bom desempenho nas eleições gerais. São Paulo elegeu uma deputada transexual. A esquerda mais radical percebeu o momento em que vivemos e compôs para defender valores mais importantes.

A votação de Lula foi expressiva, ainda que tenha frustrado a expectativa de vitória em primeiro turno. Está claro sua imensa força política frente ao crescimento da extrema-direita que engoliu a direita tradicional brasileira. Lula foi capaz de edificar uma frente ampla com grupos de centro-direita e de centro, os quais manifestaram apoio, em oposição à extrema-direita.

Tais grupos tentaram cacifar a chamada terceira via, não foram bem-sucedidos e acabaram por declarar voto em Lula no final do primeiro turno. Essa União inexistiu em 2018 e nos oportunizou quatro anos de destruição em praticamente todas as áreas (ambiental, institucional, democrática, educacional, artística, vacinal, cultural, imagem externa, harmonia federativa, articulação de políticas anticorrupção etc.).

Ainda assim, não é pouca expressiva essa frente ampla liderada pela esquerda com os mesmos atores das Diretas Já de 1983-1984 contra os mesmos atores do outro lado, o autoritarismo conservador.

IHU – E quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

Róber Iturriet Avila – A extrema-direita está enraizada e muito mais forte do que se supunha. Tem um tamanho que nunca teve na história brasileira, alavancada por empresários, produtores rurais e organizações internacionais. Muito embora esse aglutinado seja formado por antigos atores da direita brasileira: militares, setor rural, grupos religiosos, alguns liberais.

São os mesmos que fizeram oposição a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek na década de 1950 e ao João Goulart na década de 1960. Ainda que não tenha um partido forte atualmente, uma sigla pode vir a constituir-se. No parlamento, tais grupos ficam mais fortes e com capacidade de barrar reformas e de persistir a ameaçar as instituições democráticas mesmo que Lula vença o segundo turno.

Para além do parlamento, nos últimos anos formaram-se grupos radicalizados, que visam desmontar a institucionalidade da democracia liberal e a constituição de 1988, a qual trouxe enormes ganhos em termos de direitos sociais e serviços públicos amplos.

É curioso que esse grupo, que é heterogêneo, está aglutinado mais em valores ultraconservadores, o que é coerente com o antirracionalismo que muitos dos conservadores advogam. Quer dizer, ainda que o setor primário tenha de fato atingido ganhos com o governo Bolsonaro e tenha ocorrido elevação de políticas de transferência de renda, as classes médias urbanas tiveram perdas de poder aquisitivo, houve restrição de serviços públicos que tais segmentos também utilizam, como a educação.

É evidente que o governo Bolsonaro não foi bem e tinha muito pouco ou quase nada a apresentar de resultado. O governo foi inepto e incapaz de efetuar mudanças profundas. De toda forma, mostrou uma força eleitoral muito maior do que todos imaginavam, baseada em valores conservadores como "Deus, pátria e família". Isto é, contra um suposto comunismo, uma suposta ideologia de gênero. De outro lado, a bandeira contra a corrupção demonstrou-se de fachada, já que seus eleitores fizeram vista grossa à corrupção do governo e da família Bolsonaro.

Assim, é preocupante e muito assustador que esses grupos estejam tão consolidados, já que são violentos e disruptivos. Eles continuam querendo colocar tudo abaixo para impor sabe-se lá o que no lugar.

Caso Lula seja eleito no segundo turno, terá dificuldades para governar. O parlamento deu uma guinada à extrema-direita e haverá muitos governadores deste campo – Róber Iturriet Avila

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IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

Róber Iturriet Avila – Em 2018, a extrema-direita surpreendeu ocupando o espaço de uma direita tradicional brasileira. Em 2022, o fenômeno repetiu-se e consolidou-se. De outro lado, o PT e o Lula conseguiram resistir a esse crescimento e hoje representam o campo democrático no Brasil.

Caso Lula seja eleito no segundo turno, terá dificuldades para governar. O parlamento deu uma guinada à extrema-direita e haverá muitos governadores deste campo. A destruição nesses últimos quatro anos foi grande e será necessário moderar as altas expectativas. Mesmo dentro do governo haverá forças que visam barrar avanços sociais e a atuação do Estado para reduzir desigualdades e gerar crescimento econômico.

A fracassada terceira via tentará colonizar o governo Lula, ainda mais em um momento em que o apoio desse grupo será crucial. Além disso, o primeiro ano de governo está sob a égide orçamentária deste ano vigente. O Plano Plurianual e o orçamento do novo governo passam a vigorar apenas em 2024. Então, o espaço fiscal é restrito para efetuar grandes alterações em 2023, a não ser que haja uma excepcionalização legal, como uma PEC de calamidade pública. No plano internacional, haveria um alívio com a saída de Bolsonaro, seja nos países vizinhos, na Europa, nos Estados Unidos ou na China. Lula teria condições de liderar uma pauta ambiental a partir da Amazônia, trazendo inclusive recursos internacionais para a sua preservação.

Caso Bolsonaro seja reeleito, terá mais condições de avançar naquilo que não conseguiu nesses quatro anos: privatização da Petrobras, produção rural e mineração na Amazônia, imposição do conservadorismo na educação, redução do tamanho do SUS, mais armamentismo, perseguição a lideranças de esquerda e sindicalistas, redução de direitos trabalhistas, crescimento sobre os demais poderes constitucionais, notadamente o judiciário.

Do ponto de vista da política econômica, o governo perdeu ingerência sobre o Banco Central, instituição que influencia o nível de emprego, de renda, de produção e de salários e há um emaranhado legal bastante restritivo sobre o orçamento, emperrando a política fiscal, a qual também influencia o nível de emprego, de renda e da produção.

Adicionalmente, a fraqueza política do governo Bolsonaro fez o parlamento ganhar cada vez mais terreno sobre as decisões orçamentárias, ou seja, sobre o que chamamos de "governo", algo que já vinha ocorrendo desde o final do governo Dilma. O Congresso está cada vez mais tomando espaço do executivo.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Róber Iturriet Avila – Serão necessárias mudanças legais para a retomada do poder do Executivo sobre os rumos do país. Além do controle sobre o orçamento, precisamos de uma reforma política. Já houve uma reforma eleitoral, que gerará uma menor fragmentação partidária, caminhamos para a redução do número de partidos, o que é bom.

As campanhas eleitorais são muito caras, o que torna a disputa eleitoral desigual, favorecendo grupos que possuem poder econômico e visibilidade, que representam grandes interesses. O fim da doação de pessoas jurídicas ajudou a diminuir esse problema, mas não solucionou.

Precisamos ainda eliminar as reeleições infinitas, no sentido de renovar mais o parlamento e bolar algum mecanismo que impeça as chantagens parlamentares para aprovar leis, que são rotinas de ofício, mas que viraram formas de obter recursos e cargos para os parlamentares e seus afiliados. Dificilmente qualquer governo terá maioria no parlamento sem negociar, quer dizer, ceder poder e dinheiro, ou, de forma mais clara: corromper o executivo.

Está claro que precisamos de uma política anticíclica para deixar a crise para trás de vez e a forma de efetuar isso é através de investimentos públicos – Róber Iturriet Avila

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É muito inusitado que a esquerda brasileira tenha se tornado defensora das instituições da República e da democracia, ao passo que a extrema-direita é a força antissistêmica, já que identifica nessas instituições barreiras a mudanças e fonte de corrupção. De fato, elas são isso mesmo e são muito problemáticas.

Pois justamente essa disfuncionalidade ajudou a formar uma extrema-direita disruptiva que quer jogar o bebê fora junto com a água de banho. Ser favorável à democracia e à institucionalidade não pode ser confundido com fechar nossos olhos a escassa representatividade política, às falhas enormes do poder Judiciário, à politização do ministério público, ao baixo republicanismo do legislativo, ao executivo tomado por interesses espúrios, às forças armadas ilegalmente intervindo na política.

Para prosperar, o país precisa de estabilidade política e a forma como está arranjada nossa institucionalidade fragiliza o Executivo frente ao Legislativo.

Economia

Adiciono ainda que do ponto de vista econômico, está claro que precisamos de uma política anticíclica para deixar a crise para trás de vez e a forma de efetuar isso é através de investimentos públicos. Uma ampla política habitacional certamente ajudaria não apenas a gerar emprego como também a reduzir o deficit habitacional. Para tanto, é necessário refazer e unificar nossas quatro grandes regras fiscais, como a lei do teto dos gastos. Todos sabem que precisamos de uma ampla reforma tributária, que não apenas simplifique e elimine a cumulatividade de impostos, mas também amplie a progressividade e incentive a competitividade. Há espaço para melhorar a eficiência na prestação de serviços públicos e uma reforma de Estado não pode ser um tabu para as forças progressistas, há distorções e excessos que precisam de correção.

A direita tradicional precisa fazer sua autocrítica e parte já está fazendo ao apoiar o Lula. O governo atual é uma catástrofe em diversos aspectos. São pessoas desqualificadas e ignorantes que envergonham o Brasil no mundo. Houve diversos ataques à democracia no Brasil desde o final da eleição de 2014 e houve baixa reação até recentemente. Passo a passo, a democracia vem sendo atacada. O judiciário e parte da mídia perceberam e reagiram quando a guilhotina passou a ameaçá-los, mas aplaudiram quando essa guilhotina foi contra a esquerda entre 2015 e 2019.

Independentemente do resultado final do segundo turno, é inegável o avanço da extrema-direita no Brasil e é preciso ainda mais reflexão sobre os motivos desse movimento, sobretudo após um governo tão inepto quanto o atual.

***

Ricardo Evandro Santos Martins é professor adjunto da Universidade Federal do Pará – UFPA e docente do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFPA. Possui doutorado em Direito, também pela UFPA. É membro do GT de Filosofia Hermenêutica da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF. Sua pesquisa de mestrado se desenvolveu especialmente sobre as relações entre teoria pura do direito e neokantismo (Hans Kelsen e Heinrich Rickert). No doutorado, sua pesquisa versou sobre a epistemologia das ciências do direito e hermenêutica filosófica (Hans-Georg Gadamer). Atualmente coordena o Grupo de Pesquisa "Direitos humanos e teologia política: neoliberalismo, forma-de-vida e insurreição do uso" e integra o Grupo de Pesquisa Grupo de Estudos sobre as Normalizações violentas das vidas na Amazônia-CESIP-Margear.

Ricardo Evandro Santos Martins (Foto: Arquivo pessoal)

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

Ricardo Evandro Santos Martins – As luzes se revelam pela mudança nos ventos da eleição para Presidência. Tudo parece indicar, em mera projeção ainda, a vitória de Lula sobre Bolsonaro neste segundo turno que ainda vem. Isto significa que a gestão, a governamentalidade, as políticas sobre vidas e mortes do atual presidente geraram mesmo grande rejeição. Seus discursos grosseiros na pandemia, seu desrespeito aos lutos daqueles e daquelas que foram vítimas da Covid-19 (686 mil mortos), além da miséria, da fome, do ataque às universidades públicas, da trágica situação na Amazônia, vitimando indígenas e seus territórios, parecem mesmo ter sido compreendidos como causas para o fim deste governo. Um governo que precisa se encerrar o quanto antes.

Nem guerra na Ucrânia, nem crise no crescimento das economias mundiais, nem aumento de inflação em outros países são motivos suficientes para justificar a tragédia que tem sido o governo Bolsonaro. Uma tragédia que nos prejudicou internacionalmente, diminuindo nossa importância no mundo, no jogo político.

Parece, então, que algo se ilumina: um desejo de mudança. Mudança para que se possa ter segurança alimentar, poder de compra, fim da violência na Amazônia, fim da violência eleitoral, respeito aos professores, professoras e cientistas no Brasil. Enfim, desejo "daqueles que têm fome e desejo de justiça", nas suas diversas dimensões.

IHU – E quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

Ricardo Evandro Santos Martins – Por mais que as eleições tenham sido aparentemente pacíficas, contrariando a violência eleitoral cometida, nesses últimos meses, pelos apoiadores de Bolsonaro contra os de Lula, ainda sim o clima de medo persiste, medo de se sofrer violência por ir votar com as cores de seu partido, por exemplo. Ainda que os dados de votos tenham mostrado que talvez o chamado "voto envergonhado", aquele por medo de repressão sobre a manifestação de seu voto, não tenha sido fato relevante, uma vez que o resultado das eleições não tenha revelado este voto silencioso, mesmo assim persiste entre os eleitores de Lula uma certa apreensão.

Além disso, por mais que tenhamos visto rapidez e organização nessas eleições, e constatado um bom funcionamento do procedimento eleitoral, contudo a abstenção não recuou. Mais de 20% dos eleitores mostram seu desinteresse político na democracia burguesa em que vivemos, sob nossa atual Constituição Federal de 1988 (fato que me faz lembrar, cada vez mais, a cada eleição que experiencio, da obra de ficção de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez).

Outra sombra que aparece é um certo descompasso ideológico entre eleição para Presidência e membros do Legislativo. E os principais atores da Operação Lava-Jato, os envolvidos em escândalos históricos de ilegalidade judicial, foram eleitos para o Legislativo. Eles voltam, então, à cena política, podendo ter relevância numa futura provável vitória de Lula para a Presidência a partir de 2023.

O país parece dividido ideologicamente entre suas regiões. Norte, lugar da Amazônia brasileira, de onde falo, Nordeste, segundo maior colégio eleitoral regional, seguem, com exceção de Minas Gerais, em oposição histórica em relação ao Centro-oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Não apenas classes, famílias e religiões estão divididas, mas as regiões também refletem os diferentes projetos políticos para o país. É certo que essa diversidade é esperada e considerada saudável para o modelo de democracia vigente. Entretanto, isto revela o abismo histórico entre norte e sul brasileiros, provavelmente refletindo suas divisões, desde a da desigualdade de investimento, de políticas fiscais, até mesmo em relação à divisão racial do Brasil por regiões.

O país parece dividido ideologicamente entre suas regiões – Ricardo Evandro Santos Martins

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IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

Ricardo Evandro Santos Martins – Por mais que tenha falado de indicadores de mudança, as perspectivas não são tão boas. Ainda que haja a derrota de Bolsonaro, o bolsonarismo não acabará com o fim de seu primeiro, e possivelmente, único mandato. Ainda há aquilo que o Prof. Fábio Py chama de cristofascismo, especialmente entre as igrejas pentecostais – apesar de termos visto gestos pontuais de resistência. Não acredito que haverá pragmatismo entre os líderes religiosos evangélicos e um futuro terceiro governo Lula. A pauta moralista, escandalizada, paranoide, anticomunista, muito preocupada com questões como banheiro nas escolas, direitos LGBTQIA+, etc., que opõe a direita, vista como defensora da família, dos "bons costumes", do "bem", contra a esquerda, vista como cínica, "maligna", "satânica", patologizada ("esquerdopata") e corrupta, continuará num eventual governo Lula.

Uma pauta que irá mascarar, como ainda mascara: os avanços das reformas legislativas, que fazem a classe trabalhadora perder mais direitos, trabalhistas, previdenciários; os avanços nas privatizações de setores estratégicos do país; e encolhimento orçamentário, aliado com calúnias e desinformação anticientífica, odiosa contra as universidades públicas, e, especialmente, contra as ciências humanas.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Ricardo Evandro Santos Martins – Se a mudança ocorrer neste segundo turno de eleição presidencial, nada estará seguro para trabalhadores, indígenas, quilombolas, comunidade LGBTQIA+, mulheres, para a preservação do meio ambiente, memórias históricas sobre escravidão e ditadura civil-militar no Brasil. A mudança somente virá com a desativação dos dispositivos que nos levaram às tragédias sociais, econômicas e existências em que vivemos depois das reformas trabalhistas, previdenciárias e do teto de gastos, forjados após o golpe contra Dilma Rousseff, no governo de Michel Temer. Se eleito, Lula encontrará um país de volta no mapa da fome, com um Congresso envolvido no provável maior escândalo de corrupção da história brasileira, que é o orçamento secreto.

As marcas do antipetismo, também produzidas pelas seletas famílias donas da mídia brasileira, ainda existem. Olavismo, cristofascismo, a ideologia do chamado "Partido Militar", fundado num manual ideológico radical de direita, o Orvil, ainda persistem. E uma crise econômica que tem afetado diretamente a saúde física e mental do povo brasileiro, são os desafios gigantescos para um novo governo.

Aliás, um governo que provavelmente enfrentará forte oposição no novo Congresso eleito. E será um governo que encontrará um dos mais importantes países de seu bloco econômico fora da região do Mercosul, os Brics, em plena guerra e sob impressionantes sanções internacionais.

Enfim, muitos desafios externos, especialmente internos, como a luta contra o neoliberalismo gêmeo do neofascismo brasileiro. Uma luta que não terminará ano que vem. E que pode trazer uma outra direita, mais extremada ainda, talvez mais bem resolvida com sua só aparente dialética interna em relação ao neoliberalismo, potencializando, assim, seus ideais tanatopolíticos.

Rejeição aos pobres

Ainda há um segundo turno indefinido pela frente. Há um perigo iminente de que neste segundo turno o ódio aos governo de Lula e de Dilma seja maior do que o sofrimento pelo qual o povo brasileiro tem passado, sob tamanha crise econômica e escândalos de corrupção. E este ódio ao Partido dos Trabalhadores talvez não seja somente por causa do antipetismo promovido pela mídia nesses últimos 20 anos, tampouco pelos escândalos de corrupção, como o “mensalão” e os esquemas envolvendo empreiteiras, indústria de proteína animal e Petrobras, ou, ainda, pela catástrofe ambiental causada pelas obras da hidrelétrica de Belo Monte, no meu Estado, no Pará.

Contudo, com os imóveis comprados com dinheiro vivo pelo clã Bolsonaro, “rachadinhas”, e inúmeros crimes contra a humanidade sob os quais Bolsonaro tem sido acusado (contra indígenas e contra as vítimas da sua negligência durante a pandemia), parece que o “escândalo” dos bolsonaristas não se trata mesmo de algo causado por algum tipo de horror à corrupção ou pelo amor à pátria e à família. O que escandaliza mesmo, para além do que pauta moralista cristofascista demanda, é a diminuição da desigualdade social, o horror à presença das classes mais pobres nos espaços que antes eram somente de privilegiados (de aeroportos às universidades, por exemplo).

Nas eleições deste ano de 2022, em jogo estão as promessas de emancipação ainda não cumpridas no Brasil, as promessas libertadoras e de justiça social dos mais oprimidos na nossa história – Ricardo Evandro Santos Martins

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Trata-se de uma verdadeira rejeição aos pobres, de uma fobia, horror por quem esmola nas ruas, ou seja, aquilo que o Pe. Julio Lancellotti, inspirado na filósofa espanhola Adela Cortina, chama de “aporofobia”. Pois o que se quer mesmo não é defender os valores da família ou o erário público, mas, sim, defender a necessidade de se manter distinção social e econômica, associada com o apartamento racial, cuja miséria produzida e imputada a essas pessoas, para além de causa de medo e rejeição de pessoas pobres, também serve como fonte necessária de acúmulo de capital financeiro e político-partidário.

Por isso, nas eleições deste ano de 2022, em jogo estão as promessas de emancipação ainda não cumpridas no Brasil, as promessas libertadoras e de justiça social dos mais oprimidos na nossa história; as promessas que poderiam ter sofrido maiores e melhores avanços pelos governos de Lula e Dilma, mesmo até os limites que uma democracia burguesa permite.

“Nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer”

Assim, estão em jogo os desafios que parecem cada vez mais insolúveis neste regime de democracia, ainda tocado regionalmente por uma elite que se renova por meio de seus filhos candidatos aos cargos eletivos. Uma nova geração cool, que se diz “liberal”, conforme a formação que eventualmente pode ter recebido pelas thin tanks neoliberais infiltradas nas universidades e pela internet brasileiras. Em verdade, também se trata de um resto, ou de uma extensão, do capitalismo imperialista estrangeiro, que nos vende sua versão neoliberal/fascista, e que nos impõe um lugar muito subalterno na divisão internacional do trabalho, muitíssimo interessado na nossa desindustrialização e na nossa dependência do extrativismo mineral e do

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU
 
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