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No reinado da lei, o pobre e o rico tem direitos iguais... e o pequeno vence o grande se tem por si a justiça; é uma idéia remota, pois vem de Euripides. Historicamente, porém, é uma idéia falsa: o direito nunca foi outra coisa senão uma organização das desigualdades.
Jean Cruet
20/05/2022

A distopia trabalhista da Amazon

Em sua plataforma AMT, “peões digitais” recebem misérias para alimentar inteligência artificial. Nos galpões, softwares são capatazes dos assalariados. Em vez de eliminar trabalho humano, máquinas precarizam-no e o submetem à ditadura do capital

OUTRASPALAVRAS

TRABALHO E PRECARIADO

Por Tabata Sousa da Luz Ribeiro

Este artigo integra as discussões semanais a respeito do processo de digitalização da economia e do espraiamento setorial das empresas-plataforma no Brasil, sobretudo as de trabalho, que farão parte da edição da Revista da Faculdade do Dieese de Ciências do Trabalho de maio de 2022. As publicações também são fruto de parceria com a Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (REMIR) e a Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET). Leia outros textos desta série sobre as várias faces da precarização do trabalho.

> Título original: Entre o galpão e a plataforma digital: a parcialização do trabalho como base da expansão da Amazon

O filme Blade Runner, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1982, retrata uma Los Angeles distópica de 2019 em que humanos dividem o universo com robôs dotados de inteligência artificial (chamados de replicantes) e desenvolvidos por uma empresa de tecnologia. Na história, esses replicantes são clones humanos perfeitos e a maneira encontrada para distingui-los das demais pessoas é uma entrevista com perguntas sobre aspectos culturais e emocionais, sob a premissa de que apenas seres humanos seriam capazes de esboçar algumas reações diante desses questionamentos. O proprietário da empresa responsável pelos replicantes, preocupado em aprimorar suas criações e continuar com os negócios, encontra uma saída através da implantação de memórias humanas nos robôs. Em linhas gerais, ele pretende treinar a inteligência artificial com base no conhecimento humano sobre, especialmente, nuances culturais e emocionais, para que o desempenho dos replicantes ao teste seja o mais humano possível. Um aspecto que permanece oculto na obra é a origem destas memórias, isto é, quem são as pessoas responsáveis por transmitir e treinar esses replicantes e de que maneira isto é feito.

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Apesar de algumas previsões equivocadas sobre o começo do século XXI, o filme não falha em prever a inserção capilarizada da tecnologia no cotidiano e nos processos de trabalho e que sua existência estaria condicionada ao trabalho humano empenhado em, entre outras coisas, treinar e transmitir determinados conhecimentos. A tecnologia que atravessa e transforma os processos produtivos está subsidiada por uma força de trabalho humana e neste sentido, diferente da arte, é necessário observar como isso se dá e quais as características desse trabalho. Hoje, a Amazon parece materializar parte desses elementos, especialmente em duas formas de trabalho presentes na sua cadeia produtiva: a atuação das/os turkers na Amazon Mechanical Turk (AMT) e os trabalhos realizados dentro dos Centros de Distribuição (CDs), que subsidiam o varejo online. Apesar de conservarem grandes diferenças, essas duas atuações parecem ser marcadas pela parcialização do processo de trabalho com base na incorporação de tecnologias de informação e comunicação (TICs), em um movimento que não parece excluir por completo o trabalho.

De um lado, estão as/os trabalhadoras/es da AMT (chamadas/os de turkers) que não mantêm nenhum vínculo formal ou contrato com a Amazon, realizam um microtrabalho sob demanda, sendo remunerados/as por cada pequena tarefa realizada online. A AMT surge com a proposta de corrigir falhas de inteligências artificiais em processar dados, na tentativa de classificar nuances culturais de sons, imagens e textos, tudo isso sob a premissa de oferecer humanos como serviços (humans as a service) (IRANI, 20151). Em um artigo recente, Renan Kalil descreve como o trabalho é organizado nessa plataforma, enfatizando a fragmentação dos processos e como a precarização dessas/es trabalhadoras/es serve às máquinas2.

Do outro lado, está o trabalho dentro dos CDs, que retomam uma estrutura semelhante à imagem clássica de um chão de fábrica, com atividades parcializadas, repetitivas e basicamente manuais que sustentam a cadeia do varejo online. As/os trabalhadoras/es são responsáveis por duas atividades principais:

i) armazenar as mercadorias que chegam e que são colocadas em prateleiras espalhadas por todo o galpão de maneira “caótica”, sem que haja uma ordem lógica na organização. O registro do local em que cada item foi guardado é feito pelo leitor de código de barras, a informação é lida e armazenada no software da unidade. Delfanti (2019)3 denomina esta etapa como machinic dispossession (desapropriação mecânica), uma vez que o conhecimento sobre um inventário tão grande e organizado dessa maneira só pode ser lido e orientado por um software, dado que nenhuma pessoa é capaz de “operar” o galpão sem o leitor.

ii) recolher os produtos nas prateleiras e levar às esteiras para serem embalados e enviados aos compradores. Uma vez que o conhecimento sobre o inventário pertence exclusivamente ao software, é ele quem gerencia esse picking (colheita) 4. O algoritmo atribui a demanda às/aos trabalhadoras/es que estão espalhadas/os pelo galpão por meio do leitor de código de barra, ditando ritmo de trabalho e gerando informações sobre o desempenho de cada um/a. O gerenciamento algorítmico parece favorecer a precarização tanto ao transformar a mercadoria em informação a ser gerenciada, retirando o saber-fazer do trabalhador, quanto ao favorecer a desqualificação e a rotatividade da força de trabalho.

A presença da automação nos processos produtivos, observada nestes dois espaços, nos convida ao estudo sobre a parcialização do trabalho, uma discussão já realizada por pesquisadoras/es desde a década de 1970 e que parece ganhar novas nuances no contexto atual. Parte da bibliografia da segunda metade do século XX descreve a parcialização com base na divisão do trabalho nas fábricas e no crescimento da automação nos processos de produção, indicando que, em linhas gerais, o uso crescente de tecnologias, num contexto de aumento da produção, facilitaria a divisão do trabalho em parcelas cada vez menores – migalhas5 -, repetitivas e que exigiriam trabalhadoras/es com cada vez menos qualificação.

Neste momento tão marcado pela incorporação das TICs nos processos de trabalho, essa discussão ganha outros contornos. Enquanto uma parte da teoria recente entende que o alto nível de automação levaria à dispensa do trabalho, já que as “máquinas inteligentes” e a inteligência artificial conduziriam a um processo de trabalho totalmente automatizado, para autores como Benanav (2019)6 a questão colocada não seria a completa substituição do/a trabalhador/a pela máquina, mas como a automação possibilita a criação e a manutenção de subempregos. O processo seria contraditório, já que a introdução de novas tecnologias teria um duplo objetivo: o aumento da produtividade do trabalho, ao mesmo tempo em que a força de trabalho social é desvalorizada.

Em 2020, o crescimento da Amazon, em meio à maior crise sanitária do século, chama bastante atenção. A empresa fechou o ano com a receita avaliada em mais de 380 bilhões de dólares e uma lucratividade que chegou a 90% em relação ao ano anterior. O fundador e então CEO da empresa se consolidou pela quarta vez consecutiva como a pessoa mais rica da Terra, com um aumento de 64 bilhões de dólares na sua fortuna em 2020. Isso significa que, a cada minuto, Jeff Bezos recebeu mais 120 mil dólares. Outra marca salta aos olhos: a quantidade de contratações da Amazon ao redor do mundo. Ao todo foram cerca de 420 mil pessoas, totalizando 1 milhão de trabalhadores. Lembramos, além disso, que este alto número de contratações não expressa o total de pessoas trabalhando com e para a Amazon. Afinal, a massa de turkers, por exemplo, não tem nenhum vínculo formal com a empresa e, portanto, não é contabilizada.

No Brasil, o crescimento do monopólio da Amazon também pode ser observado, especialmente pela implantação de novos Centros de Distribuição (CDs): foram 5 inaugurações em 2020, totalizando 8 armazéns por todo o território nacional. Interessante observar ainda a rapidez com que o setor de varejo se consolidou no país, já que o primeiro CD da Amazon da América Latina foi inaugurado na região metropolitana de São Paulo em 2019. Alex Szapiro, CEO da empresa no Brasil, afirma que as movimentações e projeções da empresa não são afetadas pelos aspectos políticos e econômicos. Em oito anos de empresa, ele diz nunca ter falado em macroeconomia. A demanda, para ele, é criada com base na “obsessão pelo estoque” presente na gestão da empresa – garantir que o produto esteja no estoque, ofertá-lo com um bom preço e com entrega rápida. Entretanto, toda essa expansão no Brasil está envolta por bastante mistério, já que a empresa não divulga dados oficiais sobre a quantidade de trabalhadoras/es7 e pouco se sabe sobre salários, rotatividade e perfil dos/as mesmos/as. Do que se pode observar, quando se trata de brasileiros que atuam na AMT, a falta de informações é ainda maior.

No que se refere às condições de trabalho, as/os trabalhadoras/es dos CDs relatam que elas são péssimas, seja em função de jornadas exaustivas, assim como pelas cobranças por aumento de produtividade, o que resulta em longas distâncias que precisam percorrer ao longo de um dia de trabalho dentro do galpão. Além disso, as possibilidades e iniciativas de organização são boicotadas pela empresa, sendo um dos exemplos mais latentes o processo de consolidação do primeiro sindicato de trabalhadoras/es de um CD em Nova Iorque que durou muitos anos e foi marcado por perseguições intensas por parte da empresa durante todo o processo.

Finalmente, é necessário observar em que e como está estruturada tamanha expansão. Invariavelmente, esse crescimento tem relação direta com a superexploração do trabalho nestes dois espaços e, por isso mesmo, nos coloca como desafio lançar luz sobre quem são e qual a realidade dessas/es trabalhadoras/es. Investigando, ainda, se existe ou não uma tendência de expansão dessas formas de trabalho presentes na Amazon para o conjunto da classe trabalhadora, e discutindo a organização das/os trabalhadoras/es nesse contexto.

1 IRANI, Lily. (2015) The cultural workshop of microwork. In: New Media & Society. V. 17 (5). pp. 720-739.

2 KALIL, Renan. (2022) Quando o precarizado serve às máquinas. Disponível em: . Acesso em 20/03/2022

3 DELFANTI, Alessandro. (2019) Machinic dispossession and augmented despotism: Digital work in an Amazon warehouse. In: New Media & Society, vol. 23, 1: pp. 39-55.

4 DELFANTI, Alessandro. (2019) Machinic dispossession and augmented despotism: Digital work in an Amazon warehouse. In: New Media & Society, vol. 23, 1: pp. 39-55.

5 FRIEDMANN, Georges. (1964) O Trabalho em Migalhas. São Paulo: Editora Perspectiva.

6 BENANAV, Aaron. (2019) Automation and the future of work – I. In: New Left Review. V. 119, set/out.

7 No Brasil, a Amazon não divulga seus dados oficiais e números de desempenho. Em novembro de 2020, após a inauguração de 3 novos CDs, foi noticiado que 1500 trabalhadores haviam sido contratados no total, mas sem informações sobre quais eram os postos de trabalho: Acesso em 20/02/2021.

TABATA SOUSA DA LUZ RIBEIRO

Mestranda em Ciências Sociais (UNIFESP), pesquisadora do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho (GPTC).

Fonte: OUTRAS PALAVRAS
 
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