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29/04/2022

Trabalho em plataformas digitais: um empreendedorismo que leva à miséria

No espaço do IHU Ideias, hoje, às 17h30min, Rafael Grohmann e Claudia Rebechi discutem a realidade dos trabalhadores que atuam via plataformas e as possibilidades de melhorar esse trabalho

Por: João Vitor Santos |

Quando surgiram, as primeiras plataformas que recrutavam trabalhadores apostavam no discurso do empreendedorismo de si mesmo. Vendia-se a ideia de que você ganha o quanto trabalha, com jornadas flexíveis e sem chefe ou burocracia. Mas bastaram alguns meses, talvez um ano, para essa promessa se revelar uma farsa. Ainda pouco antes da pandemia eclodir, em março de 2020, esses trabalhadores que atuavam via aplicativos já entendiam que a proposta não tem nada de próspera, talvez apenas atualizando as velhas lógicas de precarização do trabalho. E quem primeiro sentiu esse baque foram os motoristas e, principalmente, entregadores de delivery. Quando ainda se organizavam para pôr as cartas de suas lutas, veio a pandemia e explodiu uma precarização que beira a expropriação de forças produtivas.

Foi nesse cenário, em 2020, que Paulo Roberto, de 31 anos, sintetizou a dor de muitos entregadores. Em meio a uma mobilização em que denunciavam nenhuma assistência de empresas de aplicativos no período mais crítico da pandemia, em que ainda eram obrigados pelas lógicas de algoritmos a trabalharem cada vez mais, disparou:

"Não recebi álcool em gel de nenhuma das empresas para as quais trabalho, nem mesmo mensagens dizendo que eu poderia retirar o produto em algum lugar. A gente passa fome. Você imagina a tortura que é andar com fome carregando comida nas costas?"

Tortura. É isso que virou o trabalho por aplicativo? Talvez muitos de nós sequer possamos imaginar o que é, exauridos e com muita fome, sentir o cheiro de uma comida deliciosa, sonhando com o seu sabor envolvendo todas as papilas gustativas, mas sem poder tocar nesse alimento. Que, aliás, está ali, nas suas costas, e você precisa ir mais e mais rápido para entregar logo, sem demorar, para não ser advertido, e mais do que depressa sair para outra entrega. Comprar um pratinho desses no fim da jornada? Fora de cogitação, só se receber de doação. Mas, como os restaurantes nem sempre conseguem ver essas pessoas...

Diante de tudo isso, é inevitável nos questionarmos: é nisso que chegamos com as promessas do empreendedorismo? O trabalho de aplicativo é condenado a essas lógicas sem que haja possibilidades de mudanças? Essas e outras questões animarão o debate de logo mais, às 17h30, dentro do espaço do IHU Ideias com transmissão ao vivo pelos canais do IHU. Os pesquisadores Rafael Grohmann, da Unisinos, e Claudia Rebechi, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, proferirão a palestra “Trabalho decente em plataformas digitais: possibilidades e limites”. Ambos compõem o grupo de trabalho que vem pesquisando o tema e que elaborou o Fairwork Brasil 2021: por trabalho decente na economia de plataformas.

O “lustroso” mundo digital que encobre a miséria

Não há dúvidas que o trabalho via plataformas revela uma das maiores tecnologias de nosso tempo. Aliás, é um dos maiores exemplo de como a chamada Revolução 4.0 tem transformado nossas vidas. O problema é que, por trás desse “lustroso” instrumento, há uma perversidade na exploração das forças produtivas. O resultado é a miséria. Rafael Grohmann, Claudia Rebechi e outros professores apontam apenas algumas das condições de trabalho a que são submetidos esses trabalhadores, em artigo reproduzido pelo IHU:

(...) sublinhamos os múltiplos riscos aos quais os trabalhadores estão expostos, sem que as plataformas os assegurem em caso de acidentes, furtos ou doenças. Além disso, mesmo as plataformas que oferecem equipamentos de proteção individual (EPIs) aos trabalhadores, eles não conseguem ter acesso ao material, pois estão em lugares muito distantes. Já os contratos muitas vezes resumem-se a termos e condições em letras minúsculas, que o trabalhador na maior parte das vezes aceita sem ao menos ler. Há também mudanças nos termos que não são notificadas com um período razoável de antecedência.

Para os pesquisadores, tudo isso está relacionado com a forma de gestão das plataformas, sem uma política clara tanto de acionamento desses entregadores como com relação aos bloqueios. O resultado, de novo, são punições aos trabalhadores, muitas dessas ainda injustas. É o que apontam no mesmo texto.

Os trabalhadores relatam: “eu só falo com robôs, não com seres humanos”. O gerenciamento algorítmico acentua opacidades na relação com os trabalhadores em relação a sistemas de classificação e coleta de dados. Além disso, desde o design das plataformas, há um aprofundamento de desigualdades de gênero, raça, entre outros, no âmbito da própria gestão.

Entre outros tantos pontos, que inclusive passam por questões mais de fundo, como as transformações do capitalismo nesses tempos de digitalização, os pesquisadores concluem que

As plataformas, assim, tentam cooptar discursos que seriam em prol do bem comum para dentro das lógicas de seus modelos de negócios – inclusive com ajuda de think tanks para ajudá-las a posicionarem-se melhor no mercado em relação a “causas” como essas, ou mesmo tentar criar versões rebaixadas de indicadores sérios que visam assegurar direitos de trabalhadores.

Assim, seguindo a perspectiva do relatório que elaboraram, no encontro de logo mais, o objetivo é discutir não só esse cenário, mas também discutir saídas. Afinal, sabemos que a tecnologia é sinal de nossos tempos e recusá-la não está em questão. O ponto é pensar uma outra ética de relações de trabalho para outros tempos.

Saiba mais sobre Rafael Grohmann

Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. Doutor e Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo – USP. Realizou estágio de pós-doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Editor das revistas E-Compós e Fronteiras - Estudos Midiáticos, ainda é criador/editor da newsletter DigiLabour. Possui também graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF.

Rafael Grohmann (Foto: acervo pessoal)

Saiba mais sobre Claudia Rebechi

Doutora e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Realizou estágio de pesquisa doutoral no Centre des Recherhes Sociologiques et Politiques de Paris (CRESPPA-CNRS), na França. Graduada em Comunicação Social pela Unesp e especialista pelo Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Gestcorp), do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola de Comunicações e Artes da USP. Professora do Departamento Acadêmico de Linguagem e Comunicação (DALIC) e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE) na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU
 
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