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06/01/2022

A consolidação de uma nova fase do capitalismo

Por Paula Giménez e Matías Caciabue 03/01/2022 11:47

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

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Estamos nos habituando a ouvir, através das nossas múltiplas telas, declarações de grandes milionários afirmando que o mundo mudou para sempre. Bill Gates, fundador da Microsoft, prevê para 2022 a realização de “reuniões por meio de avatares digitais em espaços 3D”. Marck Zuckerberg, CEO do Facebook, apresentou o Metaverse, um conglomerado de serviços digitais cujo desenvolvimento significaria uma “encarnação da internet”.

Também Elon Musk, o CEO da Tesla e SpaceX, projeta uma “cidade do futuro, Starbase, desde a qual será possível viajar a Marte”, enquanto Larry Fink, CEO do poderoso Fundo Financeiro de Investimento Global BlackRock, nos avisa que as mudanças climáticas devem trazer uma “reformulação fundamental das finanças”.

Para onde eles estão indo? Qual é a ligação entre a nova era digital e as finanças? Por que a mudança climática é uma variável em jogo?

Há anos, os capitais que controlam o sistema econômico mundial vêm conduzindo um processo de digitalização e financeirização da economia. A crise de 2008 revelou os níveis de concentração e centralização do capital mundial em um punhado de bancos e fundos de investimento, controlando a rede financeira transnacional.

Esses mesmos atores financeiros fomentaram a criação de “indústrias intensivas em conhecimento”, desencadeando a chamada quarta revolução industrial. Tudo isso foi acelerado com o isolamento causado pela pandemia de covid-19. A partir daí, grande parte de nossas relações (econômicas, políticas e sociais) passaram a ser mediadas pela virtualidade.

O mundo está, portanto, passando por uma transformação estrutural. Esses mesmos bilionários chamam isso de “transição tecnológica, climática e socioeconômica”. Ninguém pode negar que essa transição decorre do vertiginoso desenvolvimento das forças produtivas da nascente revolução tecnológica e do surpreendente salto na composição orgânica do capital, que permite a digitalização, a virtualização e a automação dos processos econômicos. Em suma, o salto na escala científico-tecnológica promoveu um processo que está transformando profundamente as relações sociais de produção.

Segundo um infográfico elaborado em 2020 por Andrés Llorente, acadêmico que analisa o mercado financeiro, três grandes fundos de investimento globais (BlackRock, State Street e Vanguard) representam, juntos, 19,81% do índice de ações industriais (Dow Jones) de Wall Street. O estudo mostra, por sua vez, a presença de cada um desses fundos, em proporções semelhantes, nas principais empresas de setores estratégicos da indústria mundial.

Articulados em uma complexa rede financeira, esses fundos concentram o controle de setores estratégicos, como a conectividade 5G e 6G, inteligência artificial, chips, semicondutores, dispositivos, plataformas de serviços de internet, indústria aeroespacial, bio e nanotecnologia, energia de transição e agricultura tecnológica (AgroTech).

Este emaranhado financeiro e tecnológico configura um sistema baseado em transformação digital, hiperconectividade, sistemas ciberfísicos, além de robótica colaborativa e sensível. Todos esses desdobramentos são decisivos para definir quem conformará a fração do capital que acumula e detém o poder econômico no século XXI, já iniciado.

Quais projetos estão competindo por esta reconfiguração?

O contexto pandêmico revelou, mais do que qualquer episódio ou conflito, tudo o que está em jogo. Quem controlar esses setores tecnológicos estratégicos vai definir quem será o grande vencedor do século em curso.

Como a Guerra do Vietnã, as lutas de libertação no terceiro mundo, a quebra dos acordos de Bretton Woods e a conversão do dólar em moeda hegemônica, a crise do petróleo de 1973, a entrada da China no capitalismo mundial a partir da estratégia de Deng Xiaoping de “um país, dois sistemas”, a ascensão da doutrina neoliberal com Reagan e Thatcher à frente do sistema institucional anglo-americano e a dissolução da União Soviética marcaram, como um todo, o fim da chamada “Era de Ouro” do capitalismo pós-guerra. A crise global causada pela pandemia iniciou a consolidação definitiva de uma nova fase do capital.

É no marco desse capitalismo em sua nova fase digital que se intensificam as lutas pela governança global, enquadradas na já conhecida tensão entre Estados Unidos e China, mais como redes financeiras e tecnológicas do que como Estados. Está se delineando uma nova geopolítica mundial, com a mudança do centro de gravidade para o eixo da Ásia-Pacífico.

Pode-se afirmar, em outras palavras, que o centro de poder formado por uma nova aristocracia financeira e tecnológica ultrapassou amplamente os Estados. A luta intercapitalista, ou seja, a luta entre as diferentes frações do capital para impor sua visão consubstanciada em um projeto estratégico, não se restringe a limites territorialmente definidos nos Estados, mas se constitui em uma rede que existe acima e apesar deles.

Essa nova personificação se enfrenta em dois blocos de poder, duas visões de mundo que expressam seus interesses em programas políticos: o digital financeirizadoda Huawei e o digital financeirizadodaAmazon. Esclarecemos, no entanto, que a complexidade do comportamento desta realidade requer a superação de leituras lineares para sua abordagem.

Esses dois blocos de poder expressam seu interesse por meio de dois projetos estratégicos para o mundo, com uma sede territorial nos Estados Unidos e outra na China, também conhecida como “as duas rotas”.

Uma rota, a do projeto digital financeirizado da Huawei, com sede na China, mas com capitais globais e com grande influência do Partido Comunista Chinês, lançou “A Nova Rota da Seda”, ou “Rota Digital da Seda”, como a descreveu Xi Jinping: “uma proposta global de integração em infraestrutura, economia e finanças”.

Depois do chamado milagre chinês, sua escala não parou mais de crescer. Agora, este projeto é baseado no plano de desenvolvimento para 2035, elaborado pelo gigante asiático, que propõe aumentar o investimento em setores de tecnologia cruciais, incluindo veículosinteligentes, novos robôs, big data, investigação biológica e agricultura molecular.

A outra rota, o projeto digital financeirizado da Amazon, com sede nos Estados Unidos, encabeça a chamada “Rota do Megabyte”, já anunciada por Trump em 2019. Seu sucessor, Joe Biden, assumiu o projeto e lançou uma proposta de infraestrutura que acrescenta, por exemplo, um investimento de 50 bilhões de dólares para desenvolver a indústria de semicondutores. Em junho de 2021, graças a uma iniciativa norte-americana, o G7 lançou o plano B3W ou “Reconstruir Melhor para o Mundo”, um projeto direcionado a nações da América Latina, Caribe, África e Indo-Pacífico.

Em seu discurso ao Congresso em abril deste ano, Biden disse que “estamos competindo com a China e outros países para vencer o Século XXI”. No entanto, e ao contrário do bom senso e da agenda pública, a disputa entre os Estados Unidos e a China não diminuiu o investimento de capital dos grandes fundos de investimento globais nos dois países. Ao menos no ano passado, aconteceu exatamente o contrário.

Um informe da empresa de investigação Rhodium Group, divulgado em fevereiro de 2021 pelo jornal britânico Financial Times, mostrou a profundidade dos laços de investimento entre os Estados Unidos e a China, além das estatísticas oficiais. Este relatório afirma que “a dinâmica do capital supera em muito a retórica competitiva que as duas potências podem apresentar em termos geopolíticos, já que, apesar de todos os esforços do governo Trump, os investimentos dos Estados Unidos na China só aumentaram”, conclui.

Por exemplo, em setembro passado, a Black Rock se tornou a primeira administradora de ativos estrangeiros a operar um negócio de propriedade integral na indústria de fundos mútuos da China, um negócio de3,6 trilhões de dólares. Os dados mostram que a rede financeira tem capacidade de interpenetração e controle além dos limites dos países.

Enquanto os dois projetos acima mencionados desenham o futuro do planeta, os Estados funcionam como cadeias de suprimentos. Suas funções são adquirir dívidas, vender produtos, especular com títulos e, claro, construir paliativos para as dolorosas condições de vida em que vivem as grandes maiorias sociais.

De fato, as grandes figuras dessa nova aristocracia financeira e tecnológica se confrontam entre si e utilizam os Estados como instrumento a partir do qual sanções, leis antitruste, controle de dados e listas negras de empresas são implementadas como instrumentos para essa disputa.

Para onde estão nos levando?

O mundo que procuram impor inclui cidades inteligentes, interligadas através de 6G, com o teletrabalho como modo de vida, a internet das coisas, a digitalização absoluta da vida doméstica, do trabalho, a vida educacional e social. Esses níveis de conectividade criam as condições para um aumento da hipervigilância e do controle e previsão de nossos comportamentos. Uma espécie de panóptico foucaultiano em cada dispositivo.

Shoshana Zuboff, professora emérita da Escola de Negócios de Harvard, descreveu em seu livro “The Era of Surveillance Capitalism” como “as empresas tornam-se capazes de influenciar e modificar o comportamento individual e coletivo, em escala. Uma vez que controlam espaços críticos de conexão e comunicação, conseguem impor uma intervenção direta na autonomia humana”. Ela completa dizendo que as empresas capturam nossos dados e nos devolvem “com mensagens destinadas a ajustar, manipular e modificar nossas atitudes, minando nossa própria capacidade de agir e pensar por nós mesmos”.

A revolução tecnológica em curso afirma, por si só, que existem as condições para resolver os grandes problemas da humanidade. Mas, por outro lado, no Fórum Econômico Mundial de Davos, que aconteceu em fevereiro de 2021, foram listadas oito previsões para o futuro, entre as quais a primeira era que: “em 2030, você não terá nada, mas você será feliz”.

Esta revolução do capital já mostra suas consequências. Por um lado, a obsolescência cada vez mais evidente dos modelos de produção e consumo, como é o caso da energia fóssil, onde chega a ser considerada a aplicação de um imposto sobre o carbono pela utilização deste tipo de combustível. Uma crise que traz consigo o aumento dos preços da energia, a expansão dos processos inflacionários e a escassez de alimentos e produtos.

O aumento das desigualdades é outra consequência. A concentração de riqueza não é uma novidade, mas a pandemia aprofundou as desigualdades. O Banco Mundial estima que os surtos sucessivos de covid-19 aumentaram o número de cidadãos que vivem em extrema pobreza em 100 milhões, chegando a um total de 711 milhões, a maioria vivendo na África e na Ásia. Os pobres do mundo representam dezesseis vezes a população da Argentina.

Enquanto isso, os 10% mais ricos da população concentram 76% da riqueza mundial, conforme revelado pela Oxfam em seu relatório publicado em 10 de janeiro de 2020. Ou seja, cerca de 2 mil bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas.

Só em 2020, 255 milhões de pessoas perderam seus empregos, e se espera que em 2022 haverá mais de 100 milhões de pessoas se mudando do seu local de origem e solicitando asilo como refugiados.

As projeções da OIT (Organização Internacional do Trabalho), em um relatório sobre o “Emprego Mundial e Perspectivas Sociais: Tendências para 2021” indicam que o déficit de empregos resultante da crise global chegará a 75 milhões quando se tenha um balanço final de 2021. Também se espera que esse índice caia para 23 milhões em 2022.

A correspondente escassez de jornada de trabalho, que engloba a escassez de empregos e a redução de horas, equivale a 100 milhões de empregos de tempo integral em 2021, e 26 milhões de empregos de tempo integral em 2022. Soma-se a esse cenário os níveis persistentes de desemprego, subutilização da força de trabalho e más condições de trabalho, dilemas que já estavam vigentes antes da pandemia. O número de desempregados no mundo em 2022 está projetado em 205 milhões, bem acima dos 187 milhões de 2019.

Em apenas nove meses, as mil pessoas com as maiores fortunas do mundo já haviam recuperado as perdas econômicas causadas pela pandemia de covid-19, enquanto as pessoas mais pobres poderiam precisar de mais de uma década para se recuperar dos impactos econômicos, segundo um relatório da Oxfam publicado em janeiro de 2021.

Na América Latina e no Caribe, 20% da população concentra 83% da riqueza. O número de bilionários na região cresceu de 27 para 104 desde 2000. Em nítido contraste, a pobreza extrema está aumentando. Em 2019, 66 milhões de pessoas – ou seja, 10,7% da população – viviam em extrema pobreza, segundo dados da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

A política do medo e da incerteza também se estabeleceu como uma das consequências que terão maior impacto a longo prazo. Em um estado de guerra multidimensional, o controle de nossos corpos e mentes torna-se um objetivo estratégico. O medo se torna uma arma poderosa de controle social. A mídia e as redes sociais afetam a psique coletiva, desarticulam o tecido social e manipulam a opinião pública.

Depressão, pânico, ansiedade, angústia, fobias, são os diagnósticos frequentes que, em 2020, impulsionaram o aumento do consumo de psicofármacos. Somente na Argentina, durante a pandemia de covid-19, o clonazepam e o alprazolam figuraram entre os 15 psicotrópicos mais vendidos no país, e “os pedidos pelos produtos desse grupo farmacológico aumentaram 6,5%, ou seja, o mercado foi ampliado em 6,9 milhões de unidades”.

É evidente que as consequências desse processo de concentração econômica afetam de forma significativa, principalmente as classes subalternas, cada vez mais alienadas, mais separadas de sua produção.

A máscara que não deixa ver

A vida concebida em termos de consumo, não só de substâncias, mas também de mercadoria, impõe o ideal de felicidade em torno da posse de dinheiro, mostrando o paradigma da ostentação, a “felicidade”exposta em fotos com “filtros” nas redes sociais.

É claro que essas condições são acessíveis apenas a uma pequena minoria. Não poder realizar esse sonho faz com que as pessoas adoeçam, se desumanizem e se frustrem enormemente, levando a comportamentos como o vício, a banalização, o individualismo e uma série de valores que revelam até que ponto é o capitalismo que está doente.

A relação entre pessoas (entre corpos) é dominada pela mercantilização. Marx fala do dinheiro como uma forma que “oculta, em vez de revelar, o caráter social dos empregos privados e, portanto, as relações sociais entre os trabalhadores individuais”. Desse modo, realiza-se a manifestação fetichista do capitalismo, onde, ao não observar que os bens são produto de uma relação social, eles substituem o sujeito. O objeto mercadoria é personificado, separando o sujeito do objeto.

Basta, portanto, obter o objeto, como se fosse algo mágico, místico, que se consegue com dinheiro, e que, agora, é levado até a sua casa pelas plataformas de comércio eletrônico. Nessa relação, o indivíduo é apenas a personificação do dinheiro. E tudo isso gerando uma aparente sensação de “liberdade”. Uma realidade que nos parece mascarada, mistificada, oculta. Por trás desse sistema de relações, o “sentimento” de igualdade e liberdade se esvai, e a coerção surge como elemento central para a reprodução do sistema.

É irreversível?

Com o desenvolvimento alcançado a nível científico e tecnológico, a humanidade poderá viver na prosperidade. As pessoas podem usufruir de dignas condições sociais, ambientais, sanitárias, educacionais e de trabalho, tecendo redes territoriais, respeitando a natureza e os demais, consolidando outra forma de desenhar a sociedade humana.

Uma comunidade organizada que aproveita a liberdade potencial conferida pelo desenvolvimento tecnológico atual, onde o trabalho vivo necessário (capital variável) para a produção da riqueza social é cada vez mais reduzido. Não é por acaso que centenas de centrais sindicais em todo o mundo lutam por jornadas de trabalho reduzidas e semanas de trabalho inferiores a quatro dias.

No entanto, os processos de acumulação e concentração, inerentes ao desenvolvimento do capitalismo como sistema, só são possíveis à custa da fome e do sofrimento de grandes maiorias. O capital sabe que a exploração econômica é a principal variável da dominação política. A revolução tecnológica acelera o processo de apropriação da riqueza por aqueles poucos bilionários, algo que o discurso “libertário” contemporâneo coloca como “digno”, “natural” e “inevitável”, e, portanto, impossível de modificar. Mas, a história é sempre produto da ação de homens e mulheres.

Isso possibilita o desenvolvimento de uma individualidade comunitária, coletiva, geradora de consciência social e promotora de crises com a matriz da “sede por dinheiro sem dinheiro”, criando condições para que essa “sede” seja coletivizada e rompa os laços místicos, mágicos apreendidos e impostos. Observar o desenvolvimento disso tem a ver com a habilidade de romper com o sentido comum.

Os corpos predispostos ao coletivo, à comunidade, estabelecem uma relação material com a realidade. São formados como sujeitos, estabelecendo a relação com os objetos do mundo, não mais mediados pela necessidade dos outros de ser um corpo que produz e consome, mas pela necessidade organizada de ser um corpo que produz poder, de transformar as relações sociais de produção, de desvendar suas forças místicas e deixar a máscara cair de uma vez por todas.

Paula Giménez é psicóloga, mestra em Segurança e Defesa Nacional, e em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos. Matías Caciabue é cientista político e professor da Universidade de Hurlingham. Ambos são investigadores do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

 
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