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Jean Cruet
26/07/2021

Motoboys enfrentam dificuldades no RS, com renda menor, maior concorrência e mais mortes no trânsito

Número de óbitos de motociclistas cresceu 3,5% no primeiro semestre deste ano

Os motociclistas profissionais, uma das categorias mais demandadas durante a pandemia de coronavírus, têm enfrentado desafios na busca por renda no Estado. Junto do aumento no uso de serviços de entrega, o segmento observou crescimento exponencial no número de trabalhadores, rotinas mais extenuantes, diminuição nos ganhos e maior insegurança no trânsito.

No primeiro semestre deste ano, 209 motociclistas morreram no Rio Grande do Sul. O número de vidas perdidas em acidentes é 3,5% maior na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS). A categoria só fica atrás dos condutores de automóvel em números absolutos.

Levando em conta apenas o ano de 2020 fechado, os dados são ainda mais impactantes. Motociclistas e caminhoneiros são as únicas categorias com aumento do número de mortes no trânsito no ano passado no levantamento do Detran. O aumento foi de 6% em 2020 ante 2019 no âmbito dos condutores de motos.

Diante desses números e do aumento da exposição desses profissionais no trânsito, o Detran-RS lançou, no início deste mês, campanha valorizando o trabalho da categoria. Em vídeos que circulam em diversas mídias, o órgão pede reconhecimento para os profissionais sobre duas rodas.

A diretora institucional do Detran-RS, Diza Gonzaga, explica que o movimento busca resgatar a importância desses profissionais, que ficaram ainda mais em evidência durante a crise sanitária. Muitas pessoas discriminam os motoboys e acabam pressionando estes trabalhadores por entregas mais rápidas, sem pensar no trabalho e na segurança deles, segundo Diza. A diretora destaca que a categoria também teve papel fundamental no combate ao avanço da contaminação por coronavírus:

— A campanha é um resgate destes profissionais, que, muitas vezes, são discriminados e sofrem um preconceito muito grande. É para resgatar uma categoria que, na pandemia, mostrou que, sem eles, muitos de nós poderiam ter se contaminado.

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Diza reconhece que o modelo de formação atual de motociclistas nos órgãos de trânsito não é o ideal e precisa melhorar. A diretora cita a necessidade de ações permanentes de educação, como o avanço da escola pública de trânsito, e não apenas de campanhas pontuais para garantir mais segurança aos condutores.

O presidente do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindimoto), Valter Ferreira, estima que o número de motoboys no Estado subiu 72% durante a pandemia. Ferreira afirma que muitas pessoas que perderam o emprego em razão da crise econômica enxergaram no mercado de entregas uma fonte de renda. No entanto, o dirigente destaca que o número de condutores sem habilitação, sem experiência e sem perícia cresce na esteira desse movimento. Essas pessoas são as mais suscetíveis a acidentes graves, segundo o presidente do Sindimoto:

— Em breve, o trânsito vai mostrar que nós temos um derivado da pandemia que são as vítimas dos acidentes. Vai ser um custo social muito grande ali na frente. De óbitos e de pessoas no hospital.

Na avaliação de Ferreira, a maior parte dos acidentes graves e das infrações causadas por imprudência ou imperícia é atribuída aos motociclistas que não são profissionais.

Com mais motoboys nas ruas, remuneração vem caindo

O motociclista profissional Fernando Fontoura, 22 anos, é um dos trabalhadores que garantem o sustento em cima de duas rodas. Atuando na profissão há cerca de dois anos, ele afirma que a pandemia de coronavírus impulsionou a demanda por mão de obra da categoria. No entanto, o profissional destaca que a remuneração não acompanhou esse movimento.

André Ávila / Agencia RBS

Fontoura se acidentou em 2020 e teve que ficar dois meses sem trabalhar

André Ávila / Agencia RBS

— A gente trabalha mais, se arrisca mais, fica mais propenso a acidentes, à contaminação e ao vírus e não vê esse retorno financeiro. Diminuiu muito o repasse das empresas de aplicativo por corrida.

Morador de Canoas, Fontoura vive com a esposa no município da Região Metropolitana. Ele começa a rotina profissional por volta das 9h30min e trabalha de oito a 10 horas por dia. Ele trabalha com aplicativos de entrega de alimentos e atua no Centro de Porto Alegre.

No ano passado, Fontoura entrou para as estáticas de acidentes. Após colisão com outra moto durante o trabalho ele caiu, sofreu ferimentos e passou por cirurgia para retirar o baço. Fontoura teve de ficar dois meses em recuperação, período no qual sofreu para equilibrar as contas.

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O motociclista avalia que ainda não observa a valorização proposta pela campanha do Detran-RS na prática. Ao justificar esse entendimento, o profissional cita a falta de reconhecimento de parte dos clientes e das empresas e de ações do poder público, como a inclusão da categoria no grupo prioritário da vacinação contra a covid-19.

— Se os motoboys e as motogirls, que estão aí nas ruas desde o início da pandemia expostos, não são essenciais, qual categoria é essencial? Hoje a gente vive a pandemia da covid, que causa a morte de trabalhadores do motofrete, e a pandemia dos acidentes, que explodiu — desabafa Fontoura.

Fonte: GZH
 
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