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31/05/2021

Vacinas e controle da covid

Programas nacionais terão de incluir toda a população e usar vacinas de alta efetividade

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

Todos concordam que a saída para a pandemia é vacinar o mais rápido possível o maior número de pessoas, usando as melhores vacinas. E no início da vacinação a melhor vacina é aquela que chega no seu braço.

Mas isso não tem impedido epidemiologistas teóricos de estudar qual deve ser o objetivo final dos programas de vacinação. Todos concordam que o objetivo inicial deve ser diminuir o número de internações e mortes. É por esse motivo que se vacina antes os grupos de maior risco, como idosos e pessoas com comorbidades. Caso tenhamos sucesso, vamos conviver com o SARS-CoV-2 infectando um grupo grande de pessoas anos a fio, mas com um número reduzido de internações e mortes.

É o que ocorre hoje com a gripe, uma vez que a baixa eficácia das vacinas e a alta taxa de mutação do vírus não permitem que o número de casos despenque brutalmente. Mas existem programas com resultados muito melhores. No caso do sarampo, os programas de imunização conseguiram reduzir a quase zero a transmissão do vírus, tornando a doença relativamente rara.

A novidade é um trabalho científico coordenado por Adam Kusharski, autor do melhor livro para leigos sobre a disseminação de doenças infecciosas (The Rules of Contagion). Nesse estudo, os cientistas delimitam o que seria necessário para, usando vacinas, atingir e manter o nível de imunidade da população acima do limite da imunidade de rebanho. Atingido esse limite, o SARS-CoV-2 não desapareceria do planeta, mas teríamos uma situação semelhante àquela que vivemos com o sarampo.

O nível de vacinação necessário para atingir a imunidade de rebanho (quando o vírus não consegue se propagar por falta de hospedeiros suscetíveis) depende de quatro fatores. O primeiro é a capacidade do vírus de infectar uma pessoa (o famoso R0). O segundo é efetividade da vacina usada em reduzir a transmissão (é a eficácia medida em condições normais de vacinação). O terceiro é a fração da população que é possível imunizar, e o quarto o formato da pirâmide demográfica (quanto da população é composta por jovens de menos de 15 anos).

Os autores criaram modelos que simulam o resultado da vacinação de uma população usando os dados já obtidos no programa de vacinação da Inglaterra: o R0 do vírus original é de 2,7 e 4,5 para a variante inglesa (não se sabe ainda o R0 para a variante indiana). A efetividade medida da vacina (Pfizer) após duas doses é de 86% no bloqueio da transmissão. E a pirâmide populacional usada foi a inglesa. Nessas condições, se toda a população for vacinada (crianças inclusive), existe 99% de chance de que é possível superar o nível de imunidade, bloqueando a transmissão. Essa certeza baixa para 94% se considerarmos a variante inglesa. Vários outros cenários, usando dados de diversos países, também foram considerados.

Os pesquisadores chegaram a uma conclusão importante. Caso as variantes com alta transmissibilidade se tornem dominantes em países onde parte da população já foi imunizada pela infecção natural (como no Brasil), ou onde existem muitas crianças (como no Brasil), só vai ser possível conter o espalhamento da doença sem utilizar medidas de distanciamento social se toda a população for vacinada com vacinas cuja efetividade for maior que 80%.

Isto quer dizer que, se desejamos deixar de conviver com o distanciamento social e muitos casos de covid-19, os programas nacionais de vacinação terão de incluir toda a população e utilizar vacinas de alta efetividade, similares às de mRNA. Portanto, a volta à normalidade é possível, mas os programas de imunização terão de ser reorganizados tanto na abrangência quanto no tipo de vacina utilizado.

Se você acha essa é uma visão alarmista ou pessimista, lembre que foram epidemiologistas teóricos ingleses que previram, em março de 2020, quando a covid-19 havia matado somente 136 brasileiros, que no Brasil teríamos cerca de 580 mil mortos nos 18 meses seguintes ("Ignorar, Mitigar ou Suprimir", Estadão, 29 de março de 2020). Na época, eles foram considerados loucos e eu, irresponsável, por divulgar a previsão.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

Fonte: Estadão
 
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