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16/04/2021

As faces ignoradas do uberismo

Uber e Rappi são apenas o lado mais visível da precarização por plataforma. Amazon ganha explorando tarefas robóticas – e pagando menos do que custaria um robô… E agenciamento de freelancer radicaliza taylorização do trabalho…

O sociólogo Ruy Braga, professor da USP e autor de A política do precariado (Boitempo, 2018), adverte que, embora muito usada ultimamente, a expressão “uberismo” não é um conceito, mas retrata um fenômeno contemporâneo: empresas altamente financeirizadas, usando tecnologia de ponta e a captura de dados para massacrar direitos e espoliar trabalhadores.

“O ‘uberismo’ é um processo extremamente agudo, e realmente diabólico, de plataformização do trabalho no Brasil e em todo o mundo, operado por grandes empresas corporativas transnacionais, ligadas ao capital financeiro”, analisa ele.

Braga aponta que há três tipos de uberismo.

Quick work. Representado pela Amazon Mechanical Turk, uma plataforma onde trabalhadores se cadastram para realizar tarefas elementares, repetitivas e fragmentadas – sem nenhum tipo de conteúdo propriamente volitivo. Eles desempenham atividades em que custaria mais caro à corporação automatizar, por meio de Inteligência Artificial.

“O trabalhador passa horas entretido com a tarefa de conectar códigos a certos produtos recebe em bitcoins, uma criptomoeda dá acesso a ele trocar com outras pessoas que também prestam serviços na internet”, relata o sociológo. “E a Amazon Mechanical Turk abre esse negócio para todo o mundo. Há trabalhadores, por exemplo, da Irlanda trabalhando com indianos, brasileiros, africanos… Todos entretidos com uma tarefa elementar e sub-remunerada”.

Plataformas de freelancer. Promete mediar clientes e profissionais, sem a presença de uma empresa, facilitando a contratação, mas promove uma dinâmica de taylorização radical do trabalho, sem nenhum direito trabalhista e o despotismo do “cliente”, que é livre para não-remunerar o profissional, caso julgue o trabalho insatisfatório a seus parâmetros. Braga conta que acompanhou uma plataforma para arquiteto, cujo nome não pode citar por motivos jurídicos.

“Os arquitetos passam até 14 horas por dia montando projetos de acordo com as demandas do cliente, que não são obrigados a fechar nenhum contrato”, diz ele. “Evidentemente, a maior parte do dinheiro vai para a plataforma. Outra parte, como acompanhar a obra, vai para outro profissional. Antigamente, o trabalho profissional tinha alguma autonomia, mas, agora, com as plataformas nesses setores, assemelha-se muito ao trabalho subalterno”.

Plataformas de trabalho territorial. Representados por corporações como a Uber, UberEats, Rappi e iFood, é a face mais visível do uberismo. Através do não reconhecimento do vínculo empregatício com os motoristas e entregadores, nada contribuem à Previdência, não pagam direito ou benefício trabalhistas e tampouco são obrigadas a reconhecer ou negociar com sindicatos. Supostamente, são empresas de tecnologia, mas, na verdade, são empresas de entrega.

“As empresas utilizam os equipamentos urbanos, as ruas, o asfalto da cidade, tudo o que é do Comum, para acumular, sem oferecer contrapartidas à cidade, aos trabalhadores e aos restaurantes. Elas especializaram-se na lógica da acumulação por espoliação”, avalia Braga.

De acordo com ele, a saída a esse cenário de esfacelamento do trabalhador passa pela “cidadania salarial”, ou seja, o acesso à defesa dos direitos trabalhistas e sociais, o fortalecimento das mobilizações coletivas, mas não necessariamente dos sindicatos. Ele cita o Breque dos App, no ano passado, que mobilizou entregadores de todo o país, como um princípio de uma possível (e necessária) revolta dos precarizados.

Assista, no vídeo acima, a importante fala de Ruy Braga. Na terça, o último vídeo da série: Paulo “Galo” Lima, motoboy em diversos aplicativos, como Ifood, Rappi e Uber, e fundador do Movimento dos Entregadores Antifascistas, mostra como as empresas-aplicativos tornaram-se máquinas de moer trabalhadores periféricos.

Fonte: Outras Palavras
 
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