Pesquisa Notícias:
   
 
INSTITUCIONAL
Sobre a Agitra
Diretoria
Estatuto Social
 
SERVIÇOS
Verbo
Convênios
Turismo
WikiTrabalho
Pesquisa Conteúdo
Fale Conosco
Acesso Restrito
 
DIÁLOGOS COM A AUDITORIA DO TRABALHO

Segurança e as Novas Tecnologias na Construção Civil

Higiene Ocupacional: Quebrando Paradigmas

Quando as pessoas falam de forma muito elaborada e sofisticada, ou querem contar uma mentira, ou querem admirar a si mesmas. Ninguém deve acreditar em tais pessoas. A fala boa é sempre clara, inteligente e compreendida por todos.
Leon Tolstoi
28/09/2020

Crise pandêmica acelera transformações que já estavam em curso.

Entrevista especial com Victor Ximenes Marques

Para o professor, essa é a característica central da experiência global com a covid-19, pois é nisso que reside o aspecto multidimensional no estado de crises que vivemos

Por: João Vitor Santos | 27 Setembro 2020

Para compreendermos as consequências da pandemia causada pela covid-19, é necessário um olhar multidimensional. Transitando entre os campos das Ciências Biológicas e da Filosofia, o professor Victor Ximenes Marques chama atenção para o fato de que um organismo tão rudimentar é capaz de lembrar à humanidade suas fragilidades, desde os aspectos estritamente orgânicos aos sociais. “A crise sanitária, assim como a catástrofe humanitária que a segue e a fragilidade econômica, tem acentuado processos e acelerado tendências que já estavam em curso”, compara. “Aliás, essa talvez seja a característica primordial do que chamei de uma ‘crise multidimensional’: a pandemia tem objetivamente funcionado como uma espécie de acelerador de tendências, como catalisador de certos processos que já estavam acontecendo, mas que agora ganham uma nova escala e um novo ritmo”, acrescenta.

Assim, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o professor se propõe a refletir sobre os estragos do coronavírus na economia, nas relações sociais, mas também seus desdobramentos políticos e suas possíveis causas. Afinal, movimentos que vinham pondo em xeque instituições e campos estabelecidos são amplificados. Como exemplo, cita as perspectivas nacionalistas que, de tão radicais, são capazes de constituir suas próprias realidades, fazendo imperar sua visão de mundo. “É como se partes significativas da população, no interior de uma mesma ‘sociedade nacional’, habitassem túneis de realidades diferentes. Os conflitos sobre o que o Estado deve fazer tendem, portanto, a se tornar mais agudos e hostis, com menos pontos de encontro possíveis, diminuindo a capacidade pública de dar conta dos problemas concretos”, analisa.

Por fim, o professor ainda observa como a condição humana é tensionada a ser revista, assim como sua inserção e relação com a natureza. “A maneira como organizamos nossas sociedades, o funcionamento mesmo da economia global, foi o que, em primeiro lugar, permitiu que a pandemia pudesse aparecer, e é o que determina a gravidade dos surtos epidêmicos em diferentes lugares do mundo”, lembra. Aliás, esses modos de vida também, segundo ele, são chave para que apreendamos a dureza das desigualdades, pois “a pandemia não impacta todas as sociedades igualmente”. “Ainda que estejamos lidando com um problema que em sua natureza é biológico, uma infecção viral, que tem seus efeitos diretamente orgânicos, simplesmente não é verdade que ‘estamos todos num mesmo barco’”, resume.

Victor Marques (Foto: Arquivo pessoal)

Victor Ximenes Marques é professor da Universidade Federal do ABC, no estado de São Paulo. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo - USP, mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará - UFC e doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Durante o doutorado, realizou estudos na Universidade de Bonn, Alemanha.

No dia 03-09-2020 o professor participou do IHU ideias. Na ocasião, ministrou a conferência virtual A pandemia multiparadigmática e o Brasil/mundo fragmentados. Continuidades e rupturas. Assista à íntegra da palestra a seguir:

Confira a entrevista.

IHU on-Line – Como o senhor tem vivido esses tempos de pandemia?

Victor Ximenes Marques – É uma pergunta complexa. A crise sanitária tem afetado todos nós, mas de maneiras distintas e desiguais. Como posso trabalhar remotamente, tem sido mais fácil cumprir o isolamento social. Aqui em casa, desde o começo da pandemia, quando se começou a falar na necessidade de quarentena e distanciamento físico, raramente temos saído, a não ser para compras básicas como supermercado e farmácia. Assim, reduzimos drasticamente nosso convívio social mais amplo, ficando numa situação de semiconfinamento, absorvidos nas tarefas domésticas.

Isso se dá ao mesmo tempo que o espaço do lar se tornou também nosso local de trabalho, intensificando, portanto, a indistinção entre tempo livre e tempo de trabalho, que já era uma característica do período neoliberal. Trabalhar em casa logo se converte em morar no trabalho – que não tem hora para acabar. Vivemos o paradoxo de experimentar a desaceleração espacial resultante do confinamento e, ao mesmo tempo, estarmos freneticamente ativos, hiperconectados à exaustão e consumidos pelo ritmo do ciberespaço, tendo que nos acomodar à nova realidade do trabalho remoto, que é particularmente problemático para a educação, onde a interação em sala de aula tem um papel fundamental. As universidades estão fazendo o que podem, em duras condições de escassez de recursos, para se adaptar ao desafio, seja oferecendo condições materiais para que os estudantes possam acompanhar as aulas, seja fornecendo, meio às pressas e improvisadamente, algum tipo de treinamento para orientar os professores, que, em sua maioria, como é também meu caso, não tinham formação prévia para o ensino a distância, com todas as suas especificidades metodológicas.

Uma situação, como era de se esperar, que gera uma série de ansiedades, e mesmo inseguranças: como fazer aula online, como planejar um curso que vai ser feito sem a interação direta com os alunos, sem o feedback que é tão vital para a dinâmica fluida da sala de aula. Em condições normais estamos o tempo todo olhando para a turma, à procura de pistas faciais e pequenas reações, para acompanhar se estão entendendo, se estão engajados, e tudo isso ajuda a criar um espírito de sintonia e acoplamento dinâmico, que é pedagogicamente crucial.

Trabalhar em casa logo se converte em morar no trabalho - que não tem hora para acabar – Victor Ximenes Marques

Tweet

Experiência digital

Em ambientes digitais a experiência é totalmente outra, o que torna esse tipo de interação muito mais cansativo. Estamos sendo atravessados por essa avalanche de reuniões virtuais. Se pensarmos até mesmo de um ponto de vista biológico, evolutivo, os seres humanos são constituídos na sua dimensão corporal e afetiva para estabelecer interações de relativa proximidade, nas quais estamos, mesmo que em um nível infraconsciente, antenados a microssinalizações de postura corporal, de movimentos dos olhos, dos músculos da face. Esse tipo de comunicação não verbal potencializa um certo acoplamento, e dá ao processo de diálogo e interação uma textura mais suave, confortável. Em ambientes virtuais esse tipo de retorno, esse tipo de afinamento, não está mais disponível, ou é mais difícil de sustentar. O resultado são encontros bem mais estressantes e cansativos.

Essa é a razão provavelmente que também está por trás do fenômeno da exaustão das reuniões online ou, como tem sido popularmente chamada, “fadiga de zoom”, o fato de que o tipo de interação em ambiente virtual parece muito mais exaustivo, gerando uma sensação de esgotamento. Faz parte do que referi como uma “situação paradoxal” que caracteriza a experiência de muitos professores durante a pandemia: permanecemos em casa, precisamos nos deslocar menos, e ainda assim o trabalho parece ser muito mais extenuante.

A pandemia nos arremessa em um ambiente de crise que é, por sua própria natureza, multidimensional - Victor Ximenes Marques

Tweet

IHU On-Line – Quais os desafios para compreendermos a pandemia de modo geral?

Victor Ximenes Marques – Certamente a pandemia nos arremessa em um ambiente de crise que é, por sua própria natureza, multidimensional. Estamos lidando, de uma maneira muito direta, imediata, com a crise sanitária, que se converte em uma verdadeira catástrofe humanitária: já são quase 140 mil mortes pelo novo coronavírus confirmadas só no Brasil, e estamos nos aproximando da marca de um milhão de mortos no mundo inteiro. É uma tragédia no nível pessoal, de famílias arrasadas pela dor e o luto, uma quantidade de sofrimento humano gigantesca (e, em larga medida, evitável).

Ao mesmo tempo é também uma crise de saúde coletiva, pois lota os hospitais, enche as UTIs, sobrecarrega o sistema de saúde, coloca em situação de estresse intenso os profissionais de saúde; podemos pensar na carga de trabalho, mas também de sofrimento psíquico ao qual estão expostos enfermeiros, médicos, cuidadores. O que temos observado também, no Brasil e no mundo, é que a pandemia desencadeia uma crise de saúde mental, seja pelo sofrimento causado pela proximidade da morte ou pelo medo da morte, pela incerteza quanto ao futuro e a vulnerabilidade econômica, mas também pelas próprias medidas de distanciamento, que aprofundam uma epidemia de solidão e atomização social que já vinha se intensificando.

O isolamento social, por mais crucial que seja para proteger as pessoas, tem seus custos psicológicos. Essa crise de saúde mental que acompanha a pandemia já está bem documentada, por exemplo, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Temos notícias de aumento do número de suicídios ao redor do mundo, de uma maior incidência de crises de ansiedade, elevação significativa do número de pessoas experimentando episódios depressivos. O que também se relaciona com o elemento econômico da crise: a onda de extinção de postos de trabalho, de aumento muito brusco do desemprego e contração da renda das famílias.

Economia

Mesmo do ponto de vista estritamente econômico, é uma crise que chega de vários lados. Produziu imediatamente uma crise financeira, uma crise da liquidez dos sistemas financeiros ao redor do mundo, gerada pela imprevisibilidade e incerteza frente à rápida proliferação do novo vírus ao redor do globo. Os bancos centrais do mundo inteiro se viram obrigados a responder de forma rápida e muito agressiva (em uma escala sem precedentes na história), uma intervenção que, ao menos por enquanto, se mostrou bem-sucedida: o crash aconteceu, mas as bolsas de valores já se recuperaram. O quão estável é essa recuperação talvez seja uma pergunta que vale a pena levantar, uma vez que se dá simultaneamente a expansão do abismo entre os mercados financeiros, salvos pelos bancos centrais, e a economia real, em particular a situação das empresas médias e das famílias (para usar uma expressão dos Estados Unidos, Wall Street nunca esteve tão distante de Main Street).

Mundo do trabalho

A pandemia tem se mostrado um fator disruptivo considerável, seja sobre o mercado de trabalho, seja sobre as cadeias globais de valor, desorganizando a economia. O nível do desemprego continua muito elevado em boa parte do mundo e, sobretudo, naqueles países em que a pandemia saiu efetivamente de controle – falseando a tese de que seria preciso escolher entre conter a pandemia ou salvar a economia.

Se por um lado a China, o epicentro original da pandemia, conseguiu conter o surto a partir de uma resposta muito rápida, decidida e coordenada – envolvendo confinamento em massa, testagem em larga escala e rastreamento das cadeias de transmissão do vírus – e, portanto, retomar a atividade econômica rapidamente, outros países não conseguiram, ou sequer tentaram, implementar essas estratégias. O fracasso público em gerir a crise sanitária é evidente em países como o Brasil e os Estados Unidos, que nunca chegaram a sair de uma primeira onda.

Calcula-se que uma parte significativa dos empregos que foram perdidos podem simplesmente não voltar – Victor Ximenes Marques

Tweet

Longa crise

O resultado será, muito provavelmente, um período longo de desemprego e depressão da atividade econômica, sobretudo a atividade econômica de comércio varejista e serviços em geral (que muitas vezes precisam da interação pessoal próxima para ocorrer), principalmente em atividades que envolvam aglomerações, como eventos esportivos e outras formas de entretenimento de massas.

No princípio, havia ainda a esperança de que se trataria de uma recessão curta, do tipo curva em V: uma rápida queda seguida imediatamente de uma rápida recuperação. Essa foi outra tese falseada pelo desenrolar dos fatos. A recuperação deve ser muito mais lenta, percorrendo um caminho tortuoso e ainda incerto. A economia brasileira, conforme dados recentes, teve uma queda basicamente de 10% entre o primeiro e o segundo trimestre. De fato, a perspectiva agora é a de que haverá um período recessivo muito mais prolongado, e sincronizado, no mundo inteiro – é não só a recessão global mais profunda ao menos desde o fim da Segunda Guerra, mas também aquela em que mais países entram em recessão ao mesmo tempo (em toda a série histórica).

Esse é outro diferencial deste momento, em que se está antevendo uma crise econômica global generalizada, afetando praticamente todos os países (ainda que em magnitudes distintas), o que produz também uma contração no comércio mundial, e talvez venha a acelerar uma tendência de “desglobalização” que muitos autores identificavam como já em curso.

Além de tudo, calcula-se que uma parte significativa dos empregos que foram perdidos pode simplesmente não voltar, seja porque várias dessas empresas estão falindo definitivamente ou porque processos de automação e eliminação de funções, já em marcha, também foram acelerados. Assim, a estagnação econômica, que num primeiro momento se apresenta como uma retração muito abrupta, tende a se estender com o tempo, produzindo, inclusive, outros problemas, como uma crise de segurança alimentar ou, inclusive, uma possível crise da dívida. Em artigo de intervenção do começo de abril, procurei traçar esse quadro conjuntural complexo ligando-o a tendências de longo prazo e cenários de futuro.

Em um contexto de crise do sistema político, a consequência é a intensificação dos processos de fragmentação, aprofundando a disfuncionalidade, a impotência e o imobilismo – Victor Ximenes Marques

Tweet

IHU On-Line – Vemos uma crise sanitária que, na verdade, se revela muito mais complexa e nos joga numa espiral de crises. Quais os desafios para se pensar essa crise de forma mais complexa e menos cartesiana?

Victor Ximenes Marques – Essa compreensão de uma crise multidimensional envolve encará-la em seus diversos e multiformes aspectos. Para ser franco, o que mais me interessa são os aspectos políticos e epistêmicos dessa crise. A crise sanitária, assim como a catástrofe humanitária que a segue e a fragilidade econômica, tem acentuado processos e acelerado tendências que já estavam em curso. Aliás, essa talvez seja a característica primordial do que chamei de uma “crise multidimensional”: a pandemia tem objetivamente funcionado como uma espécie de acelerador de tendências, como catalisador de certos processos que já estavam acontecendo, mas que agora ganham uma nova escala e um novo ritmo.

É crucial pensar como isso rebate na esfera da política. O que temos visto é que o fracasso, da parte dos governos, em conter a pandemia alimenta o circuito de degradação da confiança nas instituições públicas e na capacidade de atuação do sistema político. Novamente, trata-se de um processo já em estágio avançado em muitos países: as pessoas confiam menos nas instituições, essas instituições acabam se tornando mais impotentes em sua capacidade de intervenção concreta, o que por sua vez só alimenta a desconfiança e a descrença. Governos desacreditados têm dificuldade em agir ou em fazer cumprir suas determinações, contribuindo para disseminar a percepção de disfuncionalidade – é a lógica de uma profecia autorrealizável.

Em um contexto de crise do sistema político, a consequência é a intensificação dos processos de fragmentação, aprofundando a disfuncionalidade, a impotência e o imobilismo. Trata-se de algo que já estava em andamento, sobretudo na última década, como efeito até da grande crise econômica da década anterior, de 2007/2008, que fragilizou a confiança nos governos, nos Estados, nas instituições políticas de maneira geral. Não é por acaso que países como Brasil e Estados Unidos, onde esse processo está particularmente avançado, tenham sido brutalmente atingidos pela pandemia e, em última análise, se mostraram incapazes de administrá-la.

Fragmentação da realidade

O que também parece estar em curso nessa crise multidimensional é um elemento distintamente epistêmico, o que poderíamos denominar de uma fragmentação dos sistemas de realidade. Daí a proliferação de todas essas discussões sobre pós-verdade, fake news etc., nas quais fica evidente uma certa fragilidade das instituições autorizadas na validação do discurso público. Letícia Cesarino tem falado numa crise de sistema de peritos, como uma crise de confiança nas autoridades epistêmicas estabelecidas, relacionando-a principalmente às mudanças na infraestrutura comunicacional a partir da massificação das redes sociais.

Essa perda de confiança nos especialistas e, inclusive, na própria ideia de ciência, tem produzido uma desnorteante fragmentação de mundos: uma dificuldade de estabelecer certos acordos gerais, abrangentes, para balizar um terreno comum discursivo, as coordenadas mais estáveis que permitem dialogar em termos das interpretações de mundo concorrentes (mas em um mundo compartilhado). Quando esse sistema se estilhaça, as discordâncias não são entre interpretações alternativas, mas entre fatos alternativos. Nesse ponto é possível que os mundos habitados sejam tão incomensuráveis que o próprio diálogo não tenha mais tração.

Contra a produção de conhecimento por instituições especializadas, como a academia, emerge um fenômeno que poderíamos denominar de “populismo epistemológico” – Victor Ximenes Marques

Tweet

Negacionismo e túneis de realidade

Não é à toa que o negacionismo da ciência tem ganhado espaço, como sintoma da perda de prestígio do que poderíamos chamar de uma “elite intelectual”. Contra a produção de conhecimento por instituições especializadas, como a academia, emerge um fenômeno que poderíamos denominar de “populismo epistemológico”, uma revolta do senso comum contra os especialistas e seus métodos. Em contraposição a comunidades esotéricas especializadas dos cientistas, com seus procedimentos arcanos e modelos abstratos, o populismo epistemológico invoca a autoridade da experiência imediata, da vivência, daquilo que posso ver e sentir diretamente. Do mesmo modo, favorece o pensamento conspiratório, que é, na verdade, uma forma de projeção antropomórfica.

A mentalidade conspiratória é um atalho cognitivo, quase como uma heurística rudimentar que alivia a carga de processamento ao interpretar padrões complexos e caóticos como resultado de uma agência intencional. Ou seja, impõe um sentido geral a uma confusão generalizada. É o que tem aparecido também com muita força durante a pandemia, indo desde o negacionismo do próprio vírus ou da pandemia, cuja existência de fato não pode ser intuída sensivelmente (“que ameaça é essa que eu não posso ver ou tocar?”), a teorias da conspiração que culpam a tecnologia, como as antenas 5G, por exemplo, pela doença – ou então a atribuem a ação de governos (como no caso das denúncias do “vírus chinês”, supostamente criado em laboratório).

Outra expressão do mesmo fenômeno é o crescimento do movimento antivacina, de negacionismo da vacinação, que já estava em marcha e ganha um novo impulso, vocalizando também uma desconfiança tanto da ciência quanto dos governos. São processos que já vinham se agravando, mas podemos notar como a crise pandêmica os intensifica ainda mais.

Essas fraturas epistêmicas se alimentam também de polarizações de natureza política, aumentando o fosso comunicacional entre campos políticos em disputa. É a própria experiência compartilhada de realidade que está em jogo, com a tendência de que campos políticos adversários cultivem sistemas de realidade radicalmente incomensuráveis – cada um aparecendo para o outro como “bizarro”, “surreal”, “ininteligível”. É como se partes significativas da população, no interior de uma mesma “sociedade nacional”, habitassem túneis de realidades diferentes. Os conflitos sobre o que o Estado deve fazer tendem, portanto, a se tornar mais agudos e hostis, com menos pontos de encontro possíveis, diminuindo a capacidade pública de dar conta dos problemas concretos.

O conhecimento científico amplia as forças produtivas (e destrutivas) da economia capitalista, e por isso os Estados e empresas passam a investir pesadamente nesse tipo de conhecimento – Victor Ximenes Marques

Tweet

IHU On-Line – Como a pandemia causada pela covid-19 atualiza o conceito de ciência?

Victor Ximenes Marques – Difícil responder. O que entendemos como ciência, se pensamos na ciência moderna, um produto relativamente recente na história intelectual humana, é o resultado contingente de certos desenvolvimentos históricos, aglutinando-se no que poderíamos chamar vagamente de uma “revolução científica moderna” por volta do começo do século XVII na Europa. Na prática, esse projeto epistêmico foi capaz de avançar pela disseminação de uma certa visão desencantada de mundo: um universo com leis determinadas e passíveis de representação quantitativa. O aumento do controle sobre a natureza passaria pela construção de uma imagem representacional de um mundo desantropomorfizado, não animado por forças extra/sobrenaturais. A imagem científica de mundo parte do princípio de que o que há “lá fora”, a realidade objetiva exterior, é uma natureza basicamente uniforme, homogênea, que obedece a regularidades universais e precisas, e que por isso pode ser codificada em modelos geométricos ou traduzida na linguagem formal da matemática.

Esse tipo de concepção de mundo se acopla facilmente aos processos de industrialização atuantes na modernidade capitalista. Forma-se aí um poderoso ciclo de retroalimentação: o conhecimento científico amplia as forças produtivas (e destrutivas) da economia capitalista, e por isso os Estados e empresas passam a investir pesadamente nesse tipo de conhecimento, fortalecendo-o. Produz-se um sistema técnico-científico em que a representação quantitativa, precisa e rigorosa do mundo está a serviço do controle da matéria, do controle das forças naturais, do aumento do poder humano em submeter os processos materiais e, ao fim e ao cabo, no aumento da produtividade da indústria. Trata-se de uma visão de mundo crescentemente secular, que retirava do próprio sucesso do desenvolvimento tecnológico moderno uma poderosa legitimação.

Em busca de poder, econômico ou bélico, os Estados investiram em ciência e passaram a falar na linguagem cosmopolita da ciência moderna, que se tornou em larga medida hegemônica nas instituições epistêmicas autorizadas e definiu constitutivamente, portanto, o sistema de peritos moderno. É difícil dizer em que medida essa imagem, intrinsecamente impalatável, contraintuitiva e de dolorosa absorção, chegou a ser uma visão de mundo dominante na sociedade de maneira geral, mas não há como negar sua posição epistêmica privilegiada e seus efeitos materiais bastante práticos. De todo modo, é natural que em momentos de crise de confiança institucional generalizada se observe também uma espécie de crise epistêmica.

O vírus oferece um episódio em que os assuntos humanos e os assuntos naturais estão misturados, intrinsecamente conectados – Victor Ximenes Marques

Tweet

Ciência e sua forma de preservar o humano

O seu questionamento, no entanto, tem uma dupla dimensão. Por um lado, o próprio processo da pandemia tende, ou ao menos é fácil pensar que poderia tender, a forçar a adoção de atitude científica, ampliar a legitimidade da visão científica de mundo. Em que sentido? O vírus é justamente um elemento do mundo natural que está aí, independentemente de nossas crenças, das nossas representações sensíveis, da nossa capacidade de compreendê-lo ou de simbolizá-lo intuitivamente. Em suma, o vírus está fora da nossa experiência imediata. E, no entanto, é um aspecto do mundo natural que penetra violentamente nos assuntos humanos e os desorganiza.

A maneira como temos de aumentar nossa inteligibilidade sobre o processo viral, e assim aumentar nossas chances de contê-lo ou administrá-lo, é compreendendo-o cientificamente, produzindo modelos teóricos logicamente disciplinados e expondo-os a teste empírico. É isso que nos permitiria, por exemplo, desenvolver modelos epidemiológicos para melhor orientar a intervenção governamental, ou produzir tratamentos mais eficazes. Então, de certa forma, o vírus oferece um episódio em que os assuntos humanos e os assuntos naturais estão misturados, intrinsecamente conectados. Uma visão científica de mundo certamente nos ajuda a entender, a pensar e a lidar com o problema. Precisamos saber o que funciona ou não, e nesse sentido a imagem científica talvez seja o melhor guia disponível.

É possível que seja justamente o nosso desenvolvimento científico a razão pela qual essa pandemia não está sendo tão devastadora, em número de vítimas diretas, como outras que ocorreram em outros períodos da história humana: agora temos um conhecimento epidemiológico muito mais complexo e detalhado, entendemos melhor como os vírus se espalham e o que fazer para contê-los. Então, a ciência tem se mostrado, e penso que vai se mostrar ainda mais, inegavelmente útil, crucial no combate ao vírus, no controle da pandemia. A imagem científica de mundo se provou mais uma vez um mapa indispensável para guiar a ação humana e, em especial, para guiar a ação dos poderes públicos.

O populismo epistêmico se alimenta da desconfiança em relação a autoridades epistêmicas estabelecidas, da rejeição à elite intelectual, e reforça a confiança espontânea no senso comum ou na experiência imediata – Victor Ximenes Marques

Tweet

A desconfiança e o populismo

Por outro lado, há esse sentimento disseminado de desconfiança das instituições estabelecidas, das elites dirigentes e intelectuais. Há, sobretudo, uma certa experiência de confusão, de desorientação que uma situação aguda de crise gera. Isso também já vem de antes, mas temos aí mais um caso em que a pandemia funciona como intensificador. E esse é um terreno fértil para a proliferação do que já havíamos chamado de populismo epistêmico como correlato ao populismo político que tem se alastrado no campo eleitoral. O populismo epistêmico se alimenta da desconfiança em relação a autoridades epistêmicas estabelecidas, da rejeição à elite intelectual, e reforça a confiança espontânea no senso comum ou na experiência imediata. Nesse sentido, por exemplo, há o fato de que o vírus é invisível a olho nu e que, portanto, só pode ser detectado via mediações técnicas, como testes de PCR, o que o retira da esfera do senso comum e torna a constatação de sua presença mais fácil de ser negada.

E esse ambiente de confusão e desconfiança estimula a mentalidade conspiratória. Aliás, o que se chama por “teorias da conspiração” é de modo geral uma tentativa de dar inteligibilidade à experiência, de reduzir o caos cognitivo oferecendo uma explicação narrativa, em termos mais palpáveis, que dê conta da complexidade do mundo. Fredric Jameson tem essa ideia da teoria da conspiração como um mapeamento cognitivo dos que não têm à disposição um repertório conceitual muito sofisticado. Mesmo a mais estapafúrdia das especulações conspiratórias apresenta este caráter econômico, este alívio mental: se são satisfatórias é porque oferecem a sensação de “ah, agora tudo faz sentido, tudo se encaixa”. Frente à complexidade desnorteante e excedente do mundo, responde-se à demanda por inteligibilidade com uma historinha mais ou menos coerente e sedutora.

Esse tipo de choque exógeno, como a pandemia, pode servir também como uma espécie de choque epistêmico, produzindo uma situação em que as pessoas vão tentar, com as ferramentas que têm, criar as suas narrativas orientadoras, suas próprias maneiras de garantir um determinado sentido estável ao mundo.

Do mesmo modo que a crise ambiental e a crise climática, a pandemia poderia servir para nos empurrar na direção de nos vermos como parte da natureza – Victor Ximenes Marques

Tweet

IHU On-Line – De que forma a pandemia deve impactar a relação entre os seres humanos, e entre os seres humanos e a natureza?

Victor Ximenes Marques – Do mesmo modo que a crise ambiental e a crise climática, a pandemia poderia servir para nos empurrar na direção de nos vermos como parte da natureza. Ser humano e natureza não estão apartados, em margens diferentes de um abismo, como se participassem de domínios distintos do ser. Em outras palavras, a humanidade é um pedaço da natureza. Vem dela, é feito dela, e depende, portanto, de determinadas condições materiais, às vezes bem frágeis, para sua existência continuada. Como formulei em um artigo recente, “são sempre e necessariamente as precárias condições materiais (corpóreas e biológicas) que suportam nossas elevadas atividades ‘espirituais’ – do pensamento à política”.

Já havia ficado evidente que as nossas ações, a maneira como organizamos a nossa sociedade e como reproduzimos nosso modo de vida, têm efeitos planetários: na composição atmosférica, nos grandes ciclos da biosfera, na sobrevivência das espécies com as quais compartilhamos o planeta, ou na própria face geológica da Terra. Esses efeitos planetários, por sua vez, incidem de volta sobre as nossas vidas, constrangem e atravessam as formas como organizamos a sociedade. A mudança climática, por exemplo, tornará algumas regiões inabitáveis, inviabilizará atividades com as quais estamos acostumados, acarretará pesados custos à economia e custos humanos ainda piores. Em última medida, nos forçará a viver de maneira diferente, independentemente da nossa vontade. A crise ambiental demonstra claramente o nosso pertencimento à natureza: não há “lá fora”, ao intervir na natureza estamos intervindo nas nossas próprias condições de existência.

A crise ambiental demonstra claramente o nosso pertencimento à natureza: não há “lá fora”, ao intervir na natureza estamos intervindo nas nossas próprias condições de existência – Victor Ximenes Marques

Tweet

A gênese da pandemia oferece outra instância da mesma lição. A intrusão desse vírus específico nos assuntos humanos – um minúsculo agregado de moléculas, ao qual poderíamos nos dar o luxo da indiferença até pouco tempo atrás – desencadeou uma pandemia, uma espécie de fato social global. Embora estejamos lidando com um patógeno que tem uma natureza biológica, uma realidade bioquímica independente da humanidade e que nos afeta enquanto organismos biológicos, a pandemia não é puramente um “desastre natural”. A maneira como organizamos nossas sociedades, o funcionamento mesmo da economia global, foi o que, em primeiro lugar, permitiu que a pandemia pudesse aparecer, e é o que determina a gravidade dos surtos epidêmicos em diferentes lugares do mundo.

Está cada vez mais evidente que o surgimento desses patógenos na espécie humana capazes de se espalhar rapidamente, até porque encontram em nossa espécie uma população sem defesas imunológicas prévias, está ligado à destruição de habitats naturais, processos de desflorestamento, ou à expansão de assentamentos urbanos. A consequência de todos esses processos é colocar populações humanas em contato com populações de animais selvagens que são repositórios de vírus e outros causadores de doenças infecciosas que podem cruzar a fronteira entre espécies. A expansão tanto da fronteira agrícola como da urbana nos deixa mais expostos e vulneráveis a novos patógenos. Ou seja, a própria origem da pandemia já exprime uma relação específica entre sociedade e natureza.<

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU
 
+ Clipagem

Brasil vive apagão estatístico sobre mercado de trabalho - Sem dados de IBGE, Caged e seguro-desemprego, país pode ficar sem saber dano do coronavírusFernanda Brigatti

Reforma da Previdência - 44 coisas que você não pode deixar de saber - Leiam a matéria em anexo. Repense, reavalie esta Reforma da Previdência proposta. Faça sua parte, ajude na di

Negociação coletiva é importante para patrão e empregados - Por André F. WatanabeO mundo do trabalho passa por constantes mudanças. Com elas, os desafios de compreender qu

Carreiras de Estado repudiam estratégia do governo de culpar servidor pela crise econômica - O Fórum das Carreiras de Estado (Fonacate) divulgou nesta sexta-feira (1º) nota à imprensa e à sociedade repudiando a es

ANFIP - TCU suspende pagamento de bônus para aposentados - A ANFIP publicou matéria sobre a suspensão do pagamento de bônus para aposentados e pensionista. A notícia está assim re

+ Notícia

 
AGITRA - Associação Gaúcha dos Auditores Fiscais do Trabalho
home | Fale Conosco | localização | convênios
Av. Mauá, 887, 6ºandar, Centro, Porto Alegre / RS - CEP: 90.010-110
Fones: (51) 3226-9733 ou 3227-1057 - E-mail: agitra@agitra.org.br