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11/08/2020

Os bolsonaristas pobres colocam Guedes contra a parede, observa Traumann

Aumenta pressão por gastos sociais

Projeto eleitoral pesa em decisões

THOMAS TRAUMANN

As pesquisas semanais do PoderData confirmam uma recuperação sólida da popularidade do governo Bolsonaro nas últimas 6 semanas, resultado direto do programa de auxílio emergencial que distribui R$ 600 para 65,8 milhões de brasileiros. Na pesquisa de 24 de junho, 50% desaprovavam o governo, ante 41% de apoiadores. Já a sondagem da semana passada mostrou empate de 45% entre os 2 lados, puxado pelos aplausos de 50% entre os que recebem o auxílio.

Nos 42 dias entre os dois levantamentos, a aprovação do governo Bolsonaro cresceu 11 pontos percentuais no Nordeste (de 30% para 41%), 6 pontos percentuais entre os eleitores sem renda (44% para 50%) e 8 pontos percentuais entre os jovens até 24 anos (de 35% para 43%). São faixas do eleitorado onde Bolsonaro nunca foi especialmente popular. O Nordeste foi a única região onde o capitão perdeu no 1º e no 2º turnos de 2018. São os números que comprovam o cavalo-de-pau de Bolsonaro.

Um sucesso tão rápido permite ao presidente voltar a ser favorito para a reeleição em 2022, mas cria armadilhas inesperadas. Vamos por partes:

1. O efeito imediato do auxílio emergencial é o crescimento do bolsonarismo em bolsões tipicamente petistas. Como reconheceu em entrevista ao jornal O Globo o cientista político André Singer, Bolsonaro pode tomar do PT parte dos eleitores conquistados pelo Bolsa Família. “Este momento seria o começo de alguma coisa que, caso se desenvolva bastante, poderia, sim, ameaçar o lulismo. Mas é preciso fazer todos esse condicionamentos porque esse não é um processo dado. Se o governo Bolsonaro adotar uma política econômica, que nunca esteve presente nos seus planos, de reativação da economia por baixo, aí sim não há dúvida de que pode haver um novo realinhamento. Neste momento, é visível o esforço do governo em encontrar dinheiro pra fazer alguma coisa, o que já é uma novidade”, analisou Singer, autor de 2 livros essenciais da política recente “Os Sentidos do Lulismo” e “Lulismo em Crise”.

2. O enfraquecimento do PT é tudo o que Bolsonaro sonharia, certo? Mais ou menos. Como não existe vácuo na política, o enfraquecimento do PT significaria que parte do espaço iria para outros candidatos. E a velha ameaça “se não for ele, o PT volta” perde a razão de ser. Como observou o jornalista Pedro Doria, no Twitter: “Ao tirar força eleitoral do PT, Bolsonaro também tira o PT do 2º turno. Isto quer dizer que o antipetismo deixa de ser uma força eleitoral relevante no pleito de 2022. De Ciro Gomes a João Doria, uma gama de candidatos terá chance de chegar ao 2º turno. Sem a pulsão antipetista, o jogo de Bolsonaro perde demais”.

Na sua pesquisa PoderData sobre intenções de voto para presidente, a fragilidade do PT está evidente. A pesquisa –com todos as condicionantes de indicar o humor de uma eleição com 2 anos de 2 meses de adiantamento– mostra que Fernando Haddad e Ciro Gomes desperdiçaram o lastro construído na campanha de 2018. Haddad, que teve 31 milhões de votos no 1º turno e 47 milhões no 2º na eleição passada, aparece com apenas 14% das intenções de voto. É um resultado pífio.

3. Com a sua conversão ao assistencialismo, Bolsonaro se torna um político dependente do cofre –como tantos outros– e não mais do discurso de extrema-direita –que lhe garante apenas uns 15% de votos.

Pelo plano atual, o governo Bolsonaro pretendia distribuir mais 2 meses de R$ 600 e depois iniciar o Renda Brasil, um programa 100% Bolsonaro que somaria o Bolsa Família do governo Lula a 10 milhões de cadastrados em outros projetos. O problema? Pelos estudos do Ministério da Economia, o Renda Brasil teria no máximo 45 milhões de beneficiados. Ou seja, 21,8 milhões de brasileiros que hoje recebem o auxílio emergencial passariam a receber nada. Com medo da reação dessas pessoas, o governo Bolsonaro estuda adiar o fim do auxílio para dezembro, incluindo mais 3 parcelas de R$ 200 mensais. No Congresso há dezenas de projetos para transformar o auxílio em uma renda básica para quase todos os brasileiros.

Só que não há almoço, nem política social grátis. O Brasil terá neste ano o maior deficit da história (a estimativa oficial é de R$ 815 bilhões, deve passar de R$ 900 bilhões), mas como este é um ano de pandemia, ninguém está chiando. O problema é que o mercado conta com um controle fiscal rígido no ano que vem, o que inclui cumprir a Lei do Teto de Gastos. E nessa decisão temos um impasse. Bolsonaro foi convencido pelos políticos do Centrão de que se ganhar o Nordeste, a reeleição virá certa como o sol a cada manhã. Os generais –ministro Braga Neto à frente– também se convenceram de que o Brasil só volta a crescer se houver um impulso com obras federais, o que significa mais gastos.

Na semana passada, em entrevista a O Globo, o senador Flávio Bolsonaro defendeu a tese dos generais: “Acredito que o Paulo Guedes vai ter que dar um jeito de arrumar mais um dinheirinho para a gente dar continuidade a essas ações que têm impacto social e na infraestrutura”. Os novos eleitores bolsonaristas chegam já colocando Guedes contra a parede.

Em algum momento, ainda deste ano, ele terá que escolher entre conquistar de verdade os eleitores mais pobres, e talvez esfrangalhar o PT, ou manter as crenças fiscais de um governo liberal. Simplesmente não há como Bolsonaro seguir com os pés nas duas canoas. Tudo indica que a escolha já está feita pela saída eleitoral. A questão se Paulo Guedes sairá do governo e levará com ele o fio de credibilidade do governo junto ao mercado ou fingirá que nada aconteceu e perderá ele mesmo o manto de fiador da âncora fiscal. Com Guedes fora ou enfraquecido, são grandes as chances de um tumulto no mercado financeiro mais à frente. Em todos os anos em que o mercado apostou contra o governo (2002, 2014, 2015 e 2016), o Brasil perdeu.

A equação pela conquista dos corações e votos dos beneficiados do auxílio emergencial é decisiva para o futuro do governo Bolsonaro. Se a transição do auxílio para o Renda Brasil ocorrer sem tumultos e com explicações que convençam aqueles que ficarão de fora, Bolsonaro terá montado em tempo recorde o maior programa social do mundo. É natural que a gratidão daqueles que só sobreviveram aos tempos de pandemia pelo dinheiro do auxílio se traduza em apoio e votos. Mas essa operação muda a configuração da política e a relação do governo com o mercado. Bolsonaro joga sozinho o seu futuro.

Thomas Traumann, 53 anos, é jornalista, consultor de comunicação e autor do livro "O Pior Emprego do Mundo", sobre ministros da Fazenda e crises econômicas. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp). Escreve semanalmente para o Poder360, sempre às segundas-feiras.

Fonte: PODER 360
 
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