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O Talmude
27/11/2019

Medo de protestos faz governo recuar em reformas liberais

O ministro da Economia Paulo Guedes voltou atrás. Após ouvir críticas de toda parte, incluindo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do presidente do Supremo, Dias Toffoli, ele tentou se recompor a respeito da sugestão de que, perante manifestações de uma esquerda radicalizada, um novo AI-5 não deveria surpreender. “Acho que devemos praticar uma democracia responsável”, afirmou. “Daqui a três anos você volta e muda. Espere a próxima eleição, não precisa quebrar a cidade. Isso assusta os investidores, acho que não ajuda nem a oposição, é estúpido.” Não há qualquer manifestação na rua, pacífica ou violenta. Mas o receio formado dentro do governo já está segurando as reformas. “É verdade que desacelerou”, admitiu Guedes. “Quando começa todo mundo a ir para a rua por nenhum motivo aparente, você não sabe qual é a razão e fala: ‘não, para tudo pra gente não dar nenhum pretexto, vamos ver o que está acontecendo primeiro.’” (Estadão)

Maia foi duro na reação. “Por que alguém vai propor AI-5 caso o ex-presidente Lula, que eu acho que está errado porque está muito radical, estimule manifestação de rua? O que uma coisa tem a ver com a outra? Então se tiver manifestações de rua a gente fecha as instituições democráticas?” Toffoli seguiu. “O AI-5 é incompatível com a democracia. Não se constrói o futuro com experiências fracassadas do passado.” (Poder 360)

Entre investidores, de acordo com o Painel, a impressão é outra. De acordo com sua percepção, o governo não tem força para aprovar seu programa no Congresso e tenta criar uma crise para ampliar os poderes para além dos limites constitucionais. E a reação de Dias Toffoli estaria nessa linha. A de impor um limite. (Folha)

O editorial da Folha sugere outra tese. “Um círculo de assessores próximos ao presidente difunde a ideia de que o Brasil estaria ameaçado por uma convulsão social incitada por adversários do governo, que chegaria aqui por algum contágio em relação ao que ocorre no Chile. A hipótese — sem respaldo neste contexto em que trabalhadores acabam de perder R$ 800 bilhões na Previdência sem alarido — alimenta outro devaneio bolsonarista, de que seria necessário e possível ativar mecanismos cesaristas de defesa contra o perigo imaginário.” (Folha)

Fernando Henrique Cardoso: “O Chile é diferente do Brasil. Nós somos portugueses e eles são espanhóis. Eles são muito mais agressivos, sempre houve mais dureza na vida política chilena. Não sei se é comparável, mas na situação do mundo um fio desencapado pode levar a um curto-circuito. Eu quero isso? Não, mas pode acontecer. Eu acho que essa política ultraliberal dificilmente se implanta na sociedade brasileira. O próprio presidente Bolsonaro não é isso. Ele é um oficial de baixa patente e ele reage contra e estoura à moda tradicional, mais estatizante do que liberal. Eu acho que ele tem impulso mais estatizante que liberal. Eu sou mais liberal que estatizante. Não sou ultraliberal, acho que tem que ter equilíbrio e noção das necessidades concretas das populações. Não adianta ter uma fórmula bem-feita, porque ela não se aplica a todas as sociedades. Taxar seguro-desemprego chega a ser quase ridículo.” (BBC News)

 
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