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O que derrota outros é forte; o que derrota a si mesmo é poderoso e o que sabe que quando morre não será destruido é eterno.
Lao Tzé
16/05/2019

Ordem liberal está em crise, diz Kátia Abreu

É preciso garantir a concorrência

Desigualdade tende a ser ignorada

Propostas extremas tendem ao desastre

O tamanho dos Estados é uma das grandes discussões político-econômicas do nosso tempo. Estado com poder de intervenção na vida do cidadão, ou “Estado liberal” com atuação limitada?

No final do século XVIII e início do século XIX, com o mundo em crise, surgiram os liberais, cujo nome mais marcante é Adam Smith. Segundo ele, o livre mercado produziria riqueza e faria a distribuição da renda.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1919) e a crise de 1929 abalaram o liberalismo. Em períodos de crise e de desemprego, o Estado deveria atuar para salvar as pessoas. Isso foi feito, inclusive, nos EUA, em 1930, quando o desemprego ultrapassou 25%.

Em 1936, John Keynes publicou “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, fortalecendo a doutrina keynesiana de intervenção dos Estados.

Só em 1970, com a inflação e o desemprego, o liberalismo voltaria por meio do monetarismo da Escola de Chicago.

O governo deveria cuidar só da oferta de bens públicos e atuar onde o mercado tivesse falhas. Era o estado mínimo, com pouca ou nenhuma importância às desigualdades e à pobreza.

Em 2008, uma nova crise deixou claro que os mercados eram mais imperfeitos do que pensavam os economistas neoclássicos. E Robert Shiller, Nobel de Economia em 2013, mostrou que os preços dos ativos também decorriam de irracionalidades.

Outro Nobel, Richard Taler, fez análise psicológica das decisões de agentes econômicos e minou ainda mais a suposta racionalidade do mercado.

A lista dos estudos deste tipo é imensa, mas esse texto não é sobre a história do pensamento econômico – até porque essa não é minha especialidade.

A intenção aqui – com ajuda de alguma pesquisa – é mostrar como as ideias avançaram desde que Paulo Guedes, o poderoso ministro da Economia, obteve o doutorado na Universidade de Chicago, em 1978.

Mas a julgar pelas fortes declarações do ministro, ele continua preso ao radicalismo liberal daquela época. A verdade, contudo, é que o liberalismo radical está em crise. O capitalismo só funciona em sua plenitude se estiver garantida a concorrência.

Hoje sabemos que as estruturas monopolísticas predominam, sendo quase a regra em setores importantes da atividade econômica – inclusive no agronegócio –, enquanto a concorrência perfeita parece ser a exceção.

Os sistemas regulatórios no mundo todo não têm sido capazes de evitar o controle de mercados e preços pelos monopólios e oligopólios.

Nos países desenvolvidos, de meados dos anos 70 para cá, com exceção do período 1995-2004, tem se registrado aumento contínuo da desigualdade, crescimento da pobreza e queda da produtividade do trabalho, a despeito dos avanços recentes na TI.

Seria muita pretensão minha apresentar, nesse pequeno texto, soluções para o quadro acima descrito. Limito-me a mencionar ações que considero equivocadas e, como parlamentar, estou disposta a discutir as propostas de solução no Congresso.

A história mostrou que ideias radicais de esquerda, de transferir para o Estado a propriedade dos meios de produção, conduzem ao desastre. No outro extremo, o radicalismo de direita, xenofóbico e que vê na globalização a desgraça do mundo, é tão danoso quanto a proposta socialista.

Acima de tudo, fechar os olhos e não reconhecer que a ordem liberal necessita de urgentes reparos é o caminho para o fracasso. Para se resolver um problema, é necessário reconhecer que ele existe.

No Brasil, mais do que a concentração de renda, o que preocupa é a pobreza, a crise na educação e as desigualdades de oportunidades.

Infelizmente, liberais radicais não se preocupam muito, ou se envergonham em falar sobre essas “coisas”.

Acredito que os Estados devem ser fortes no compromisso democrático, na defesa do interesse público e na criação de oportunidades para todos. Estados fracos não movem para melhor o mundo das pessoas.

Kátia Abreu, 57 anos, é senadora pelo Tocantins, ex-ministra da Agricultura e ex-presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)

 
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