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09/03/2018

Ministro coloca jovem de 19 anos, apadrinhado do PTB, para fazer pagamentos de R$ 473 milhões

Um dia depois da nomeação, Mikael Medeiros liberou R$ 22 milhões em contrato suspeito

POR VINICIUS SASSINE 08/03/2018 19:26 / atualizado 08/03/2018 20:19

Mikael Tavares Medeiros, de 19 anos, nomeado gestor financeiro de contratos de mais de R$ 470 milhões por ano no Ministerio do Trabalho - Michel Filho / Agência O Globo

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BRASÍLIA — Mikael Tavares Medeiros está sempre de bom humor quando chega ao trabalho. No começo da tarde, ao adentrar o quarto piso do edifício-anexo do Ministério do Trabalho para um expediente que costuma durar algumas horas, distribui sorrisos e cumprimentos a seus subordinados e à sua secretária. Acomoda seu paletó na sala 444, onde, desde 28 de dezembro, coordena e autoriza os pagamentos a fornecedores da pasta – coisa de R$ 473 milhões por ano.

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Mikael tem 19 anos. De idade, não de ministério. Até outro dia, fazia troça nas redes sociais por ter ficado de recuperação no último ano do Ensino Médio. “qm passa direito é busao kakakwkaka”, escreveu numa delas. Mikael estava desempregado; entrou há pouco na faculdade. Sua experiência profissional até ser nomeado no Ministério do Trabalho: vendedor de óculos numa loja, indicado pelo pai.

Ele começou a trabalhar na pasta em outubro de 2017. Foi nomeado coordenador de documentação e informação pelo então ministro Ronaldo Nogueira, do PTB. Um cargo tão burocrático como o nome sugere. Mas que não paga tão mal: R$ 5,1 mil brutos, por mês. Dois meses depois, recebeu a missão de ser gestor financeiro de um setor fundamental do ministério. Tornou-se “responsável pelos atos necessários à execução orçamentária, financeira e patrimonial” dos pagamentos da Coordenação Geral de Recursos Logísticos. É a turma que libera dinheiro dos contratos da pasta. A atribuição da função de gestor financeiro foi assinada pelo então secretário-executivo da pasta, Helton Yomura. Yomura é ministro interino desde então. Foi apadrinhado por Roberto Jefferson desde que a nomeação da filha dele, Cristiane Brasil, naufragou.

DO DESEMPREGO À ESPLANADA

Ninguém assume a paternidade da nomeação de Mikael, mas ela apresenta claramente conotações políticas. Seu pai, um policial, preside o PTB numa cidade próxima a Brasília. É aliado do deputado Jovair Arantes (GO), líder do partido na Câmara. Sua mãe, uma diarista, recebe Bolsa-Família.

O pai do rapaz é o delegado da Polícia Civil de Goiás Cristiomario de Sousa Medeiros. Ou Delegado Cristiomario, como se apresenta aos eleitores de Planaltina de Goiás e região.

LEIA MAIS: Auditoria da CGU acha irregularidades em serviços de tecnologia no Ministério do Trabalho

A reportagem conversou com o delegado em seu gabinete na delegacia em Planaltina. Ele negou ter feito a indicação do filho para o cargo no ministério, disse que não teria problema em fazê-la e confirmou ter sido o responsável por apresentar Mikael aos próceres do partido:

– Não sei qual cargo ele ocupa lá. Sei que ele esteve passando por gabinetes e que participou de reuniões comigo no PTB. Eu inseria ele no partido. Sugeri a ele sair procurando. Talvez tenha conseguido alguma amizade.

Segundo Cristiomario, o filho não é filiado ao PTB. Registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Mikael está filiado ao Partido da Mulher Brasileira (PMB) desde março de 2016, a partir das fileiras da sigla na cidade do pai.

– Não me perguntaram em momento algum sobre o cargo. Nem eu liguei para ninguém para que a nomeação ocorresse. Ponho meu filho para trabalhar desde os 16 anos de idade. Aqui na cidade ele era vendedor de óculos numa loja – diz o delegado.

Cristiomario afirma ainda que a indicação pode ter partido de Jovair, o líder do partido na Câmara.

– Eu espero que não exista nenhuma irregularidade. Sei que ele está no ministério, mas não sabia que tinha virado gestor financeiro. Vou sugerir que ele passe essa gestão financeira para outra pessoa. Se tivesse me perguntado, eu teria falado para não assumir.

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A mãe de Mikael, que não vive mais com o pai do jovem, diz que pouco sabe sobre a vida profissional do filho. Luciana Tavares Dias afirma que a indicação deve ter partido do PTB. Na frente da casa dela no DF, na região do Varjão – um lugar pobre, mal iluminado e cheio de lotes baldios –, um carro estava com um adesivo do “Delegado Cristiomario”.

Até meses atrás, Mikael morava na mesma casa da mãe, segundo ela. Luciana tem outros três filhos e recebe R$ 163 por mês do Bolsa Família. Se a renda do filho funcionário público for incluída, ela não tem direito ao benefício, de acordo com as regras do programa. Luciana confirma que Mikael segue incluído no cadastro do Bolsa Família.

– Eu tento tirar o nome dele há meses, porque ele não mora mais comigo e não me ajuda com dinheiro em casa. Eu preciso do Bolsa Família. Faço diárias três vezes por semana. Estou ligando lá todo dia para excluírem ele – afirma a mãe do coordenador do Ministério do Trabalho.

As mudanças na vida de Mikael foram muito rápidas. Em abril de 2017, quando foi levado à Justiça por policiais militares por portar 13,6 gramas de maconha, o garoto tinha 18 anos de idade e informou estar desempregado.

No dia 23 daquele mesmo mês, Mikael deveria ter comparecido à Justiça, conforme acertado em audiência que resultou na suspensão por três meses do processo por porte de droga para consumo pessoal. Não apareceu nem atendeu ao telefone. “acho que tô bebendo pouco, queria ter mais dinheiro para aumentar o ritmo”, escreveu numa rede social dias antes.

Delegado Cristiomario (no centro), pai de Mikael e presidente do PTB em Planaltina de Goiás, ao lado do deputado Jovair Arantes (à esquerda) - Reprodução/Facebook

PAGAMENTOS SUSPEITOS

A portaria que alçou Mikael à função de gestor financeiro foi publicada em 28 de dezembro. A área que ele passou a gerir financeiramente passou a liberar pagamentos já nas horas seguintes.

Naquele dia, O GLOBO publicou uma reportagem que revelou o resultado de uma auditoria até então sigilosa do Ministério da Transparência e Controladoria Geral da União (CGU). A investigação apontou que o Ministério do Trabalho direcionou uma licitação para contratar a empresa Business to Technology (B2T) e superdimensionou os serviços contratados. Licenças e horas trabalhadas foram superfaturadas e sucessivos alertas emitidos pela CGU, ignorados, conforme a auditoria. Os contratos, destinados a serviços de combate a fraudes com o seguro-desemprego, somavam R$ 76,7 milhões.

Dentro do ministério, diversos servidores de carreira se recusavam a fazer pagamentos à B2T, diante dos alertas da CGU para que os repasses fossem interrompidos. A unidade de onde sai o dinheiro é a Coordenação Geral de Recursos Logísticos, sobre a qual Mikael passou a ser o responsável pelos atos para a liberação do dinheiro. Um dia após o jovem assumir a função, o ministério emitiu uma ordem bancária com pagamento de R$ 22,49 milhões à B2T.

Em janeiro, novos pagamentos foram feitos à empresa, na ordem de R$ 8,3 milhões. Ao todo, conforme os dados disponíveis no Portal da Transparência do governo federal, a Coordenação Geral de Recursos Logísticos pagou R$ 71,1 milhões a diversas empresas contratadas pelo ministério, desde a chegada de Mikael à função de gestor financeiro.

O Ministério do Trabalho sustenta que Mikael tem “alto grau de responsabilidade”. “Não levamos em conta sua idade, mas sim sua capacidade. Sua nomeação seguiu critérios de conduta ilibada e comprometimento”, diz a pasta, por meio da assessoria de imprensa, sem responder quem o indicou. “Quanto aos fatos pessoais da vida do servidor, não cabe ao ministério comentar, já que na nomeação todo funcionário com cargo de confiança passa por uma criteriosa pesquisa.”

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Cabe ao jovem fazer “apenas” a conformidade da liquidação da despesa, segundo o ministério. “Isso ocorre somente com a aprovação do gestor do contrato, fiscal administrativo, fiscal técnico, jurídico, ordenador da despesa e do financeiro”, diz. Procurado, Mikael não falou com a reportagem.

O ministério defende o contrato com a B2T e argumenta que houve retenção de 20% do valor da fatura. “Somente interessa a interrupção do projeto de detecção de fraudes aos fraudadores.” É a mesma posição da B2T, que nega qualquer relação de seus proprietários com políticos do PTB. “A empresa tem entre os seus clientes diversos órgãos governamentais, inclusive a própria CGU e a Polícia Federal.”

Com tantos pagamentos a liberar, as tardes de Mikael podem ser intensas. Ele participa de reuniões fora, recebe cumprimentos e afagos de funcionários mais velhos que ele. Sob a coordenação de Mikael, estão três divisões dentro da pasta. Quando o relógio aponta para 18h30, ele desce apressado com um amigo, rindo, com uma mochila nas costas e um andar meio adolescente. Passam pela entrada principal do ministério e fumam um cigarro pelo Eixo Monumental, até o ponto de ônibus. É o fim de mais um dia de trabalho.

Fonte: O Globo
 
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