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William Law
08/05/2014

O dragão incomoda Dilma

Mercado ignora reconhecimento de presidente de que "não está tudo bem" com a inflação e a admissão de manobra fiscal por Mantega

DENISE ROTHENBURG

ROSANA HESSEL

Em conversa com 10 jornalistas mulheres, durante jantar no Palácio da Alvorada, na noite de terça-feira, a presidente Dilma Rouseff fez um comentário de incomum sinceridade sobre o elevado custo de vida, um dos temas que mais provocam desgaste ao seu governo. "A inflação está sob controle", disse a presidente, repetindo a frase padrão que costuma usar quando interpelada sobre a alta generalizada de preços que atormenta as famílias brasileiras. Em seguida, porém, acrescentou: "Mas não está tudo bem". Dilma, contudo, perdeu a oportunidade de explicar por que considera que uma coisa que não vai bem está sob controle.

Com dose semelhante de franqueza, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu que recorreu a manobras contábeis, em 2012, para conferir uma aparência de normalidade às contas públicas. "Foi um ano em que a economia cresceu pouco e a arrecadação caiu. E aí, para fazer o resultado fiscal, foi preciso fazer ginástica. Tivemos que pegar o fundo soberano e forçamos um pouco a barra nesse sentido, e ele fez suas críticas", disse Mantega em entrevista à TV Brasil, após ser questionado sobre comentários do ex-ministro Delfim Netto, um dos economistas que mais fizeram restrições à contabilidade criativa, nome pelo qual ficaram conhecidos os artifícios usados pelo governo. O ministro garantiu, no entanto, que, depois disso, essas práticas não foram mais utilizadas. "Tornamos tudo o mais transparente possível. Nunca houve fiscalização como há hoje", afirmou.

Desaprovação

Os comentários de duas das mais altas autoridades da República não tiveram repercussão no mercado financeiro. O dólar caiu 0,49% e a Bolsa de Valores de São Paulo subiu 0,51%, mas esses movimentos resultaram de fatores como a entrada de dólares no país e as declarações de Janet Yellen, presidente do Federal Reserve (Fed), a autoridade monetária dos Estados Unidos, sobre a tendência dos juros naquele país. Os analistas explicam que esse aparente descaso ocorre porque, na verdade, a presidente e o ministro não disseram nada que o mercado não venha repetindo há muito tempo. E, em relação a Dilma, o que tem movimentado os negócios com ações são as sondagens eleitorais que mostram a perda de popularidade da chefe do executivo.

"Os operadores da bolsa brasileira ficaram mais atentos ao discurso da presidente do Fed do que ao que disse Dilma. As ações da Petrobras subiram porque há uma expectativa do mercado de que as duas próximas pesquisas eleitorais do Datafolha e do Ibope apresentarão nova queda na aprovação da chefe do Executivo", explicou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. "O que Dilma e Mantega falam hoje não tem impacto algum. O mercado trabalha com os números já estabelecidos e eles só mudam quando ela cai ou sobe nas pesquisas", acrescentou Felipe Chad, sócio da DXI Consultoria e Planejamento Financeiro.

Além disso, uma coisa é o governo reconhecer que nem tudo vai bem no controle da inflação e que há razões para duvidar da transparência das contas públicas. Outra é o mercado entender que a situação vai mudar de figura. "É difícil acreditar em qualquer mudança no comportamento do governo em um ano eleitoral. A gente sabe que não é a convicção deles. Por isso, as apostas são de que as maquiagens nas contas públicas continuarão ocorrendo", avaliou Chad. Para ele, a bolsa continua subindo porque o mercado está olhando mais para fora do que para dentro do país, atento ao fluxo de capital externo que busca lucrar com as altas taxas de juros. "Por isso as declarações de Yellen importam. E, por isso, a bolsa sobe ou desce", completou.

Tarifaço

Na avaliação de analistas e de entidades como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as altas taxas de inflação no Brasil travam o crescimento do país. Na terça-feira, a entidade cortou a previsão de expansão da economia brasileira para 1,8% neste ano. Para a presidente, contudo, o país mostra desempenho melhor que o resto do mundo e o mau humor crescente da população em relação ao governo não é provocado pelo custo de vida, mas pela ainda suficiente oferta de serviços, cuja causa ela atribui aos governos anteriores aos do PT, embora o partido já esteja no poder há 11 anos.

Na conversa com as jornalistas, Dilma ainda deixou exposta uma divergência com Guido Mantega, que nesta semana mencionou a perspectiva de aumento da tributação de cosméticos e bebidas para que o governo consiga cumprir a meta de superavit fiscal. "Não terá aumento de imposto", afirmou. "Não sei em que contexto ele falou sobre isso". Mas não quis comentar a possibilidade de troca de ministros, com o deslocamento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para o Ministério da Fazenda. "Não cogito nada", disse. E, embora esteja aumentando a possibilidade de ela não estar mais no Palácio do Planalto em 2015, a presidente descartou uma alta acentuada de tarifas em 2015, com o reajuste dos preços reprimidos da gasolina e da energia. "Não haverá tarifaço nenhum", afirmou.

Fonte: Correio Braziliense - 08/05/2014
 
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